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SEGUNDO ENSAIO - SEXUALIDADE E IDENTIDADE SEXUAL

Cecília Leite Costa
Dezembro, 2018

SEGUNDO ENSAIO

SEXUALIDADE E IDENTIDADE SEXUAL

Nesse ensaio desenvolverei as primeiras considerações sobre o conceito de Identidade Sexual dentro da teoria da Programação Cenestésica. Essa teoria e as técnicas apropriadas para o trabalho clínico com bloqueios em cada fase do desenvolvimento foram compiladas em uma metodologia conhecida como Análise Psicodramática. Para efeitos didáticos, me referirei à teoria de Dias pela sigla TPC (Teoria da Programação Cenestésica)

A evolução da Identidade Sexual é uma etapa inserida em uma teoria mais ampla. Sua plausibilidade e persuasão exigem algumas palavras sobre as premissas assumidas por Dias, na TCP. Trata-se de uma teoria do desenvolvimento humano que será apresentada, paulatinamente, a partir do tema da evolução da Identidade Sexual. Por ora, é importante dizer que a evolução da identidade sexual parte de uma tese forte e algumas secundárias, deduzidas das primeira. Se fizermos uma analogia com uma árvore, ela tem uma Tese Tronco e algumas ramificações. Nesse ensaio exploraremos as premissas da Tese Tronco.

 A Tese Tronco assume duas premissas:

A primeira afirma que Sexualidade e Identidade Sexual são dois conceitos intrinsecamente ligados, mas de naturezas distintas. A Sexualidade é geneticamente determinada pela espécie. Isso quer dizer que é disparada numa determinada fase do desenvolvimento e regida pelos hormônios sexuais em um tempo de amadurecimento previsto pela espécie.

A Identidade Sexual é o canal psicológico por meio do qual a sexualidade é escoada. Ela será o produto da combinação idiossincrática entre a introjeção dos modelos masculinos e femininos na infância (dos pais e pessoas das redes mais próximas), na puberdade e adolescência e da interação com os padrões sócio-culturais (estéticos e morais) na comunidade ao qual pertence.

A segunda premissa é que as energias feminina e masculina, tanto em homens quanto em mulheres, se organizam em agressividade ou assertividade (energia masculina) e intuição  (energia feminina). Essas duas energias estão presentes em todos os seres humanos e, na fase da emergência dos hormônios sexuais, serão canalizadas na energia sexual.

 Essas duas premissas se combinarão não somente para o desenvolvimento do gênero ou da orientação sexual, mas para a organização da combatividade e sensibilidade dos sujeitos, ao longo da vida. Parafraseando, o masculino e feminino são produto de uma combinação complexa de traços estabelecidos nas experiências cenestésicas (até os dois anos e meio) e da interação cultural, que constituirão uma determinada pessoa com traços (“jeitos”) e escolhas pessoais. Se elas se equilibram de um forma saudável, teremos uma pessoa com escolhas integradas e espontâneas na vida. Nesse ensaio, começarei a apresentar o conceito de Identidade Sexual, introduzindo a presença dos elementos feminino e masculino na formação da personalidade e da Identidade Sexual dos sujeitos .

A TPC supõe três grandes fases de transformações cenestésicas no desenvolvimento humano: a primeira, até os dois anos e meio, é fase em que as sensações e propriedades que conheceremos pelo nome de intuição estão em formação: o sentir, o perceber e o pensar.  A segunda é a puberdade e a terceira é a menopausa. Todas estão intimamente interligadas de forma que, para entender o desenvolvimento da identidade sexual, na puberdade, é necessário entender como se desenvolveu a identidade da criança e para entender o processo de amadurecimento psicológico, é preciso entender como se formou a identidade, com um todo,  e a identidade sexual dessa pessoa.

Para Bermudez, autor de referência de Dias, o campo da intuição se forma em estreita correlação com o desenvolvimento sensorial e em correspondência com as habilidades emocionais. Assim, buscar o peito, mecanismo reflexo inicial na experiência do bebê, traz a primeira experiência de saciedade e seu correspondente emocional: a satisfação.  Posteriormente, o defecar traz as primeiras experiências de alívio. Elas acontecem com a  eliminação das fezes, resultantes da mobilização de grupamentos musculares do períneo (a peristalse), que pressionam a parede das alças do intestino, permitindo que o bolo fecal seja expelido. A sensação de alívio é concomitante à experiência emocional de diferenciação cenestésica:  ela inaugura a relação do bebê com algo que é externo a ele e que não é, por outro lado, o complementar da sua experiência de unidade, o seio; mas que surge de dentro dele: o cocô. Essa fase inaugura a vivência cenestésica de surgimento e terá seu correlato emocional nas experiências de criação (surgimento de ideias). Depois, a descarga mictória traz outra novidade sensorial: a capacidade de conter algo e o prazer advindo do ato de expurgar ou liberar: ato de micção. Seu correspondente psicológico é a continência emocional (de sensações e sentimentos) e o prazer advindo da descarga ou liberação de conteúdos contidos. O prazer “agente”, no contato com as zonas erógenas, começa a ser desenvolvido a partir daí. A criança começa usufruir da relação de prazer com o corpo de forma espontânea ou compensatória mas, para Dias, não erótica, nesse momento. O erotismo  surge com a chegada da energia sexual .

Dito isso, é possível ter uma ideia da intensidade das vivências cenestésicas que acompanham o desenvolvimento psicológico e biológico nos primeiros anos de vida.

Esse turbilhão de sensações se regulariza depois dessa etapa, criando condições da estabilidade biológica para o investimento da energia psíquica na vida social e no aprendizado. Inicia-se, para a TPC, a fase do desenvolvimento psicológico e a formação da Identidade. 

O desenvolvimento psicológico conta com a estabilidade biológica até a puberdade, fase em que um novo turbilhão de sensações passa a habitar o púbere, trazendo o desconforto e o medo esperados na injunção à lidar com desconhecido. Essas novas sensações, para falar com Dias:

“(…) surgem como um foco de tensão difusa. A criança começa a perceber que algo estranho está acontecendo com as suas sensações, alterando o seu modo de sentir. No início, surgem como agitação, inquietação, oscilação de humor (com explosões de raiva), crises de medo, estranhezas que, lentamente, se discriminam como atração sexual- o popular tesão.” (Dias, 2000, p.83). Em outras palavras, ela começa a erotizar a energia sexual. A energia psíquica será, em grande medida, descarregada pela via sexual, a partir de então. O desenvolvimento das capacidade psicológica de agir no mundo (masculino) e captar as atmosferas facilitadoras e inibitórias (feminino), se combinarão à necessidade de imitar novos modelos identitários, femininos e masculinos e escoar a energia sexual, de forma a se tornarem sujeitos sexualmente ativos. A Identidade Sexual combina as novas necessidades cenestésicas, aos modelos pré-existentes e ao contexto de convivência do indivíduo, criando as condições de possibilidade do seu desenvolvimento. Esse menino e menina começam a se identificar com os comportamentos das pessoas que compartilham seu gênero e características sexuais e com as performances dos adultos que espelham aspirações futuras. Eles também começam a erotizar o seu comportamento (mobilizar a atração sexual) e a canalizar essa energia para um objeto de desejo sexual. Logo, a energia sexual é produzida pelos hormônios sexuais. A identidade sexual é o canal de escoamento da energia sexual pelo indivíduo. Ela não acontece, somente, pela necessidade de descarga do prazer; ela é desenvolvida em um processo complexo e subjetivo.

E como Sexualidade e Identidade sexual se entrelaçam para o alcance do amadurecimento sexual? Esse tópico será desenvolvido ao longo dos três próximos ensaios.

Assumindo o entrelaçamento entre os três aspectos constitutivos da Identidade Sexual: modelos pré-existentes de masculino e feminino, modelos externos que passam a ser incorporados a partir da puberdade e influência sócio-cultural, podemos refletir sobre como a adolescência se desenvolve com características peculiares (não se resume a uma fase de transição), originais e de suma importância para o amadurecimento psicológico do adulto.

A sexualidade parte de dois instintos básicos em qualquer espécie mamífera: impelir- atribuída ao macho e acolher, atribuída à fêmea. Para Dias, esse seria o instinto básico subjacente à forma de se sentir se comportar como macho e como fêmea. Essa energia se expressa no agir no mundo- energia agressiva (primeiramente por necessidade- instinto de sobrevivência- sucção do seio) e no sentir – energia feminina- acolher as sensações advindas do contato com o calor, afago e nutrição. O elemento masculino ou energia agressiva ou assertividade se desenvolve a partir da busca do alimento, depois o afeto e depois da satisfação das necessidades íntimas e vontades e o elemento feminino ou energia passiva ou intuição e desenvolve a partir do receber, acolher e depois do sentir e, finalmente, intuir.

Pode-se concluir que embora impelir seja um instinto masculino e acolher um instinto feminino, ir para o mundo com combatividade- energia masculina- e ser capaz de acolher, receber e captar atmosferas psicológicas- energia feminina- são instintos intimamente relacionados aos traços e comportamentos introjetados, presentes tanto em homens quanto em mulheres. Esse aparente detalhe é crucial porque ele traz a atenção para os modelos de gênero (masculino e feminino) e de combatividade e sensibilidade (masculino e feminino) presentes nos pais ou cuidadores que serão oferecidos como modelos de imitação e construção identitária aos filhos. Somado à isso teremos os padrões morais e culturais em voga que serão o solo para as transformações cenéstesicas do púbere, porque é de onde virão as referências de comportamentos diferentes dos familiares introjetados, até então.

Retomando o início do ensaio, a chegada da energia sexual imprime sensações numa intensidade, muitas vezes, violenta. Os modelos das funções paterna e maternal- i.é, de papéis associados ao gêneros masculinos e femininos- foram transmitidos e introjetados numa criação “x”, junto com modelos de combatividade para buscar satisfazer os desejos e aspirações (masculino) e de integra-los (feminino) a uma vida satisfatória. Uma combinação x desses elementos e das vivências individuais de opressão, repressão ou facilitação emocional, formaram a personalidade da criança. O contexto de convivência da criança é o que ela conhece  como “ambiente natural”, porque ela ainda não tem autonomia e condições psíquicas para se organizar como um indivíduo com projeto de vida próprio. Ela tem, por outro lado, vivências introjetadas de formas de estar no mundo mais integradas ou oprimidas, captou e introjetou climas hostis, de insatisfação, opressão ou facilitação da espontaneidade e elas são condição sine qua non para a liberdade de experimentar novidades ou repetir as formas de estar no mundo dos cuidadores. Essas vivências terão repercussão, também, na escolha dos possíveis parceiros, na vida sexual. Por isso é saudável que algum nível “oposição”, por parte do adolescente, aconteça nessa fase . 

Esse panorama nos ajuda a imaginar o contexto da adolescência como uma fase de contato com sensações novas: energia sexual, ambiguidade moral (nem sempre o desejo da pessoa está de acordo com as convicções pessoais e as expectativas que se sente impelida à corresponder) e a necessidade de começar a se colocar no mundo de forma pessoal (não apenas como membro de uma família de origem).

A proposta da sequência de ensaios é oferecer uma leitura do desenvolvimento da Identidade Sexual que seja complementar às teorias do Desenvolvimento psicológico já existentes (vide Teoria da Adolescência Normal) no ponto que acho mais controverso: o “protocolo”  genético para o Masculino e o Feminino. O homo sapiens, diferente das outras espécies de mamíferos- foi agraciado com a inteligência: capacidade de intervir na natureza de forma a satisfazer suas necessidades e vontades. Essa habilidade o capacitou para ser o mais apto a sobreviver em muitas ocasiões mas, também, para criar condições artificiais que lhe permitissem usufrir da criatividade e do prazer de formas não “naturais”.

A distinção entre o que vem a ser geneticamente determinado e desenvolvido numa cultura é um ponto controverso de difícil delineação. A TPC não pretende, em absoluto, esgotar o tema.

A relevância da discussão, no campo do estudo da sexualidade humana, está no aporte teórico para a compreensão clínica e posicionamento ético e moral diante das controvérsias relativas ao campo da sexualidade.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

Beni, R. in Dias, R.C.S.V & Cols. 2012. Psicopatologia e Psicodinâmica na Análise Psicodramática. Volume IV. São Paulo. Ágora.

Corso. D.L. & Corso, M. 2018. Adolescência em Cartaz: Filmes e Psicanálise para entendê-la. São Paulo. Artmed.

Dias, R.C.S.V. 1987. Psicodrama- Teoria e Prática. São Paulo. Ágora.

Dias, R.C.S.V e Dias, G.A.S. 2018. Psicopatologia e Psicodinâmica na Análise Psicodramática. Volume VI. São Paulo. Ágora.

____________.1996. Evolução da Identidade Sexual. In Vínculo Conjugal na Análise Psicodramática. São Paulo. Ágora. IV: pp.81 à 108

Erikson, E.H. 1968. Identity: Youth and Crisis. New York. W.W. Norton & Company , Inc.

Martin, E. G. 1996. A Psicologia do Encontro: J.L. Moreno. São Paulo. Ágora.

Rojas-Bermúdez, J.G. 1978. Núcleo do Eu: Leitura psicológica dos processos evolutivos fisiológicos.Volume I. São Paulo. Natura.

 


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