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PRIMEIRO ENSAIO - EROTISMO

Cecília Leite Costa
Novembro, 2018

PRIMEIRO ENSAIO

EROTISMO, IDENTIDADE SEXUAL E ADOLESCENCIA

(Erotismo nas teorias da Análise Psicodramática e Adolescência Normal)

Erotismo e fantasia são conceitos indispensáveis para se pensar a identidade sexual. O intuito do ensaio é traçar algumas considerações iniciais sobre esses conceitos, por meio do cotejo entre abordagem da adolescência presente no conceito de Identidade Sexual, desenvolvida por Vitor Dias e a abordagem da adolescência presente no conceito de Adolescência Normal, desenvolvida por Arminda Abersaury .

A Análise Psicodramática , assim como a teoria de Aberastury, assume a convicção freudiana de que a evolução das relações diádicas e triangulares está na base da formação da identidade sexual. O surgimento do erotismo e o seu papel no desenvolvimento dos sujeitos assumem, no entanto, caminhos diferentes em cada autor. Sem entrar em detalhes que extrapolam nosso conhecimento e objetivo pode-se dizer que, para a A.P, o erotismo assume um papel fundamental no desenvolvimento da identidade sexual com o advento da energia sexual, concomitante ao surgimento dos hormônios sexuais, na etapa do desenvolvimento que coincide com a entrada na puberdade. As alterações cenestésicas, resultantes do surgimento dos hormônios sexuais, trazem sensações inéditas de estranhamento e desconforto derivadas da necessidade de escoamento da energia sexual que, a partir desse momento, acontecerá por meio de comportamentos erotizados. Naturalmente existem relações de prazer pelas vias erógenas antes da puberdade. A primeira relação do ser vivo, a propósito, ocorre a partir de uma zona erógena (seio).  Essa relação- diádica- assim como outras que surgirão ao longo do desenvolvimento cenestésico da criança, estão intrinsecamente associadas ao contato com o prazer; mas não são, até a puberdade, conotadas sexualmente. O desenvolvimento da capacidade de controle de descargas prazerosas mictórias, por exemplo, são descargas prazerosas. Estão relacionadas, porém, à capacidade de agir no mundo de forma espontânea com intuito de satisfazer desejos íntimos. Elas atuam na criança, muitas vezes, de forma compensatória, já que ela não possui autonomia ou recursos para satisfazer suas vontades.

A importância da espontaneidade – que se expressa na ação criativa ou no brincar- no desenvolvimento do equilíbrio e saúde psíquica da criança, nos leva a divergir de Aberastury no que toca à compreensão do papel do erotismo na infância, antes da chegada da puberdade. Se Aberastury mescla premissas kleininas e freudinas de maneira relativamente livre com vistas à comprensão do fenômeno da adolescência, recorreremos à Winnicott (bem como Rojas Bermudes e Jacob Moreno- autores de referências de Dias), para a defesa da Análise Psicodramática como uma alternativa possível para a compreensão clínica do fenômeno da adolescência.

 Para a AP, os elementos feminino e o masculino se organizam na criança desde a mamada e, no início, estão relacionados à sobrevivência. O elemento feminino é correlato da passividade e definirá o campo da intuição- energia que vêm do receber, acolher- e tem como consequência inicial a sensação de satisfação da saciedade. O elemento masculino é correlato da agressividade, que dá forma à assertividade e surge da necessidade da busca do peito, pelo bebê: o que caracterizará o seu agir no mundo. Acredito que essa visão encontre eco no conceito de Objeto Subjetivo, da teoria winnicottiana. Em ‘O brincar e realidade” Winnicott comenta:

“Na nossa teoria é necessário assumir o masculino e o feminino em meninos e homens e o masculino e  feminino em meninas e mulheres.

Eu gostaria de dizer que o que chamo de ‘elemento Masculino’ não se refere às energias ativas e passivas do bebê, relacionadas ou originárias do instinto sexual. Essa ideia nos faz imaginar que falamos em instinto sexual, quando pensamos na relação do bebê com o seio materno e com o amamentar e, subsequentemente, de todas as experiências que envolvem as principais zonas erógenas e seus correlatos instintos e satisfações. A minha sugestão é que, pelo contrário, o elemento feminino se relaciona com o seio (ou com a mãe) no sentido de se tornarem uma única coisa, de o objeto ser o sujeito. Não vejo instinto sexual, nesse caso.

(É importante lembrar que o uso da palavra ‘instinto’ vem da etologia. Eu duvido muito que ‘reconhecimento’ seja uma propriedade do o recém nascido. Eu diria que a questão do reconhecimento é irrelevante para o estudo das primeiras relações objetais nos bebês. Ela, certamente, não tem nada a ver com o trauma da separação, lugar onde o reconhecimento passa a ter, de fato, importância).

O termo objeto subjetivo está sendo usado para descrever o primeiro objeto existente, um objeto que ainda não pode ser repudiado como um fenômeno ‘não-eu’

(…) Independentemente da complexidade que sentido de eu e estabelecimento da identidade psicológica ao longo do desenvolvimento do bebê venha a ter, nenhum Sentido de Eu pode emergir sem leva rem conta esse sentido de ser. Esse sentido de existência é algo que antecede a ideia de ser - em relação -, porque não há nada exceto essa unidade’” (ibid, p.108. Grifos meus) .

 O conceito de Objeto Subjetivo, na teoria winnicottiana, é usado para descrever a primeira relação com o objeto por parte do bebê. Nesse momento, ela é uma relação de sobrevivência, em que a saciedade advinda do mamar garante a existência e continuidade do ser e não deve ser considerada uma relação de prazer no sentido erótico ou sexual.

Se seguirmos essa linha de raciocínio, o erotismo presente na entrada na vida sexual ativa- na puberdade- não precisa, necessariamente, ser tributário do erotismo infantil. O erotismo infantil, em Freud ou Klein, é fruto da evolução da relação do bebê com as zonas erógenas primárias (seio materno) e terá desenvolvimentos distintos em cada uma das teorias. De qualquer forma, o escoamento ou não da energia que impulsiona o prazer pela vida seria, na criança, auto-erótica, em função sua natureza bissexual, até a puberdade.

Para a A.P, assim como para Winnicott, a relação de prazer da criança com o mundo se dá na ação criativa que ocorre por meio do brincar. O prazer é o correlato do relacionar-se com os objetos do mundo de maneira espontânea. Ele atualiza o sentimento de continuidade e faz com que a relação objetal primária com a mãe encontre, paulatinamente, substitutos.  A qualidade dessas relações, somada às atmosferas ou climas afetivos da convivência familiar ou íntima serão os responsáveis pelas possibilidades de saúde psíquica da criança. Em outro termos, serão as condições de possibilidade da expressão da sua espontaneidade. A espontandeidade é inata, recuperável em qualquer etapa da vida e é a medida de equilíbrio entre a assertividade (energia agressiva) e intuição (passividade) no desenvolvimento infantil.  Por conseguinte, a identidade sexual começa a se desenvolver na puberdade- etapa do desenvolvimento em que se presencia o surgimento dos hormônios sexuais e o advento da energia sexual.

A puberdade e adolescência têm papel fundamental na separação do adolescente da sua família de origem. A adolescência, considerada como um todo, inicia o processo de separação entre a expectativa dos pais (ou o projeto dos pais para a criança) e o que ela aspira e se sente inclinada a buscar, seja com relação a satisfação de suas necessidades íntimas, seja com relação às suas aspirações pessoais. Em outras palavras, ele (adolescente) começa organizar o seu projeto de vida.

Em ensaio anterior, comecei a explorar o fenômeno da puberdade/ adolescência na teoria de Dias. A puberdade traz consigo uma série de estranhamentos e inquietações oriundos da falta de sincronia entre a velocidade da mudança biológica do corpo, as sensacões inéditas que ela traz e o esquema corporal ainda infantil. Estou interiamente de acordo com os teóricos da Síndrome da Adolescência Normal (Knobel e Aberastury & col., 1970): a morte do corpo infantil e a aceitação do corpo adulto requerem um luto que precisa ser bem resolvido, tanto para os púberes/adolescentes, quanto para os seus genitores. Isso porque os pais revivem as angústias e conflitos da adolescência deles no momento em que percebem que os filhos começam o processo de desprendimento da família nuclear. Para a autora da Adolescência Normal, contudo, essa nova fase reeditaria, em muitos aspectos, a condição inicial esquizo-paranóide  do bebê. Isso porque a mudança dos caracteres físicos começa a especificar “um sexo” com papéis sociais relativos a ele, que demandariam flutuações na vivência e aprendizagem dos mesmos. A sensação de desconhecimento e falta de propriedade sobre um corpo que passa a ter características alheias ao repertório imaginário que os sujeitos têm de si, traria a sensação de cisão esquisóide.

 A angústia esquiso-paranóide, filiada à psicanalise kleiniana, explica a ambiguidade presente no comportamento adolescente como oriunda do conflito entre o desejo do corpo adulto e a nostalgia do corpo infantil bissexual- momento do desenvolvimento em que as ansiedades relativas às performances de cada sexo ainda não se faria presente.

Para a A.P, as novidades inerentes à puberdade/adolescência são, também, tributárias de uma segunda novidade inscrita no protocolo genético: além do corpo passar a ser investido de hormônios sexuais e da necessidade de escoamento da energia sexual, a área cerebral responsável pelo desenvolvimento da Linguagem e das habilidades intelectuais, dá um salto, provendo o futuro adolescente da capacidade analítica e argumentativa. Vejamos como esse casamento acontece.

 A energia sexual é canalizada para relações erotizadas.  Por conseguinte, o indivíduo começa a desenvolver uma identidade sexual   e a usa para escoar a energia sexual, derivada dos hormônios. Os hormônios, por sua vez, passam a ser combinados às fantasias individuais e expectativas de performances sociais, em uma experiência sexual ativa. Esse fenômeno explica o nível de estranhamento dos púberes com as sensações desconhecidas, somados às performances que começam a ser exigidas para o pertencimento social. Essas sensações vêm de forma desencontrada pois as imagens e fantasias que o corpo recém infantil tem acerca de si (esquema corporal) não contemplam as mudanças físicas/ biológicas com a velocidade com que chegam na puberdade.  Logo, há uma enorme angústia frente ao desencontro entre imagem ou esquema corporal e o corpo em transformação, i. é, entre as mudanças e exigências que o corpo passa a ter e a capacidade de assimilar e integrar que o psiquismo pode oferecer. O início da experimentação sexual é altamente ansiogênico: começar a experimentar encaixes corporais com outros corpos significa lidar com a excitação que surge no próprio corpo, no contato com o outro corpo, com a excitação que vem do outro corpo, além da excitação que vêm das fantasias de ambos os parceiros, tecidos a partir de um repertório de sensações, imagens e sentimentos inteiramente novo. O grau de ansiedade é proporcional ao desafio: mesmo cada vez mais ágeis, intelectualmente, a experiência no campo da sexualidade precisa ser vivida em primeira pessoa, na troca de experiências corporais e com a falta do controle consciente que o alcance do orgasmo exige. O vocabulário da sexualidade não se aprende em livros.

 O encontro sexual e amoroso ganha os contornos próprios do desenvolvimento da identidade sexual: na puberdade, a exploração sexual inicial é titubeante e não é propriamente amorosa, no sentido forte do termo. São relações de caráter projetivo e idealizado. Os modelos identitários infantis começam a ser deslocados para os candidatos ao posto de novos modelos identitários: é a fase dos heróis, do ídolos – astros e artistas-, do apaixonamento erotizado pelos professores, do(a) Grande Amigo(a).  Grande Amigo(a) representa o sucesso nas performances que o adolescente precisa e deseja desempenhar: ser bonito, inteligente, bem sucedido nas abordagens erotizadas, sábio, campeão nos esportes e, nas últimas décadas, perito nos jogos e navegação virtual. O (a) Grande amigo(a), contudo, não é somente status. Ele é o parceiro, o cúmplice no novo universo de sensações e sentimentos que passam e exigir privacidade e intimidade: os primeiros tímidos passos rumo à separação no núcleo familiar. A incondicionalidade dos sentimentos é correlata da intensidade das sensações e sentimentos e a confidência passa a ser item essencial da ressignificacão do lugar do Amigo. O amigo púbere é diferente do amigo da infância e da adolescência. Ele começa a encarnar o que o adolescente usará, com propriedade, mais tarde, com o nome de amor. Ele encarna a intimidade.

 Em paralelo, a capacidade de refletir, argumentar e se posicionar criticamente, avança a passos largos nessa fase. Por isso a formação acadêmica passa a ter a exigência de diversas disciplinas com intuito de avaliar as capacidades lógica e analítica dos adolescentes.

Para a AP, a entrada na adolescência marca a apropriação do lugar da experimentação e entrada na vida sexual. Nesse, e em outros tópicos, se assemelha à teoria de Aberastury. Algumas nuances, porém, diferenciam a compreensão da entrada na vida sexual e o destino da energia sexual e criativa no desenvolvimento da identidade. Gostaria de pontuar dois deles.

Para Aberastury, o ineditismo das transformações cenestésicas no adolescente fariam com que essa experiência se assemelhasse à cisão esquisóide, em função da falta de aparato e repertório psicológico para incorporá-la. Sua tese é que essas transformações e as dificuldades típicas da adolescência até o amadurecimento das condutas sexuais, teriam como pano de fundo o luto pela perda do corpo infantil que significaria, em outras palavras, o luto pela perda da bissexualidade infantil. As fantasias, segundo ela, dão o tom da experiência erótica desde o nascimento. Elas são intrinsecamente dependentes do desenvolvimento da espécie visto que, desde a triangulação, já têm caráter genital: penetrante para o masculino e penetrado para o feminino . Isso explicaria que a fase genital amadurecida tivesse como ápice ou resolução, a reprodução. Isso explicaria, também, ao menos em parte, a má resolução da sexualidade nos casos de orientação homossexual.

 “São as fantasias de penetrar ou de ser penetrado o modelo de vínculo que vai se manter durante toda a vida posterior do sujeito, como expressão do feminino e do masculino. Para isso, as figuras de pai e mãe são fundamentais e essenciais. A ausência ou déficit da figura do pai vai ser a que determinará a fixação na mãe e, consequentemente, vai ser, também, a origem da homossexualidade, tanto do homem, como da mulher (…) É durante a adolescência e, como aspectos da elaboração edípica, que se podem ver aspectos de conduta femininos no rapaz e masculinos na moça, que são expressões da bissexualidade não resolvida”. (p.46, 47)

 Isso não significa interpretar que, na teoria da Adolescência Normal, a evolução sexual para a heterossexualidade seja a forma mais “completa” da sexualidade. Ela seria o percurso esperado para o processo de individualização saudável: da masturbação, primeiramente, com a exploração de algo externo a si –como seria na cisão esquisóide - até ser algo integrado que, depois, pode ser expulso e incorporado no ato sexual com penetração e capacidade procriativa. Esse percurso conferiria ao indivíduo capacidade e maturidade (independência real) para formar um par estável em um projeto de vida adulto: com as responsabilidades exigidas nessa fase do ciclo vital . A grande odisséia do indivíduo, rumo à maturidade sexual seria, em última instância, ter um sexo só pleno, independente e, eventualmente, encontrar um par .

As atitudes reivindicatórias e as flutuações de humor também poderiam ser inseridas como parte desse processo: a ambiguidade tem seu germe na necessidade de negar as fantasias genitais edípicas e, paradoxalmente, projetar cargas libidinosas (erotizadas) em figuras idealizadas que repitam esses modelos (de pai e mãe). Somaria-se a isso a necessidade de lidar com as cargas afetivas ambíguas dos pais. Elas viriam, por um lado, da expectativa de que o filho realize as frustrações deles (projeção) e do medo de perder a criança que começa a ensaiar ir para o mundo. Por outro, da dificuldade em lidar com a angústia decorrente da atualização (revivência) das próprias situações edípicas conflitivas.

Diz ela:

 “A necessidade que a realidade impõe de renunciar ao corpo, ao papel e aos pais da infância, assim como à bissexualidade que acompanha a identidade infantil, enfrenta o adolescente com uma vivência de fracasso ou de impotência, frente à realidade externa. Isso obriga o adolescente a recorrer ao pensamento para compensar as perdas que ocorrem dentro de si mesmo e que não pode evitar. As elucubrações das fantasias conscientes- refiro-me ao fantasiar e o intelectualizar-, servem como mecanismos defensivos frente a estas situações de perda tão dolorosas”. (p.39)

A compreensão da adolescência pela AP é semelhante à de Aberastury em muitos aspectos, a começar pela importância dada ao desenvolvimento da espécie para a compreensão da sexualidade e, por conseguinte, de como as fantasias e comportamentos erotizados se organizarão em função do rearranjo biológico do corpo, a partir do surgimento dos hormônios sexuais. A energia ou elemento feminino e masculino também estão presentes desde o nascimento, bem como o salto na capacidade analítica e argumentativa e o uso do recurso intelectual, de forma muito mais sofisticada, como mecanismo defensivo, na adolescência. Algumas nuances, porém, nos levam a pensar no desenvolvimento sexual e intelectual, nessa etapa, com certas diferenças e, talvez, com destinos diversos para a formação da identidade sexual. Para Dias, desde a mamada, o elemento masculino impele a energia e o feminino, acolhe. Com o advento dos hormônios sexuais, a energia masculina impele o impulso sexual e a feminina, o acolhe. Como foi dito anteriormente, a entrada na vida sexual ativa pressupõe etapas até que se alcance uma interação sexual. Mesmo que iniciante e exploratório na adolescência, quando o sexo acontece com interação, pressupomos que tanto o rapaz quanto a moça tenham sintonia com como é se sentir penetrando e como é sentir penetrado. Portanto, quando a interação acontece, pressupomos que a mulher, mesmo sem penetrar, já conheça a excitação vinda do ímpeto masculino. É a familiaridade com o receber energia impelida que, na mulher, organiza a sintonia com a energia masculina: (re)conhecer a excitação vinda do impelir e a excitação vinda do acolher. Isso organiza, no corpo feminino, a sintonia com a sensação de excitação masculina e vice-versa .

Entretanto, tanto homem quanto mulher, possuem energia masculina e feminina desde o nascimento, que se organizam nas capacidades de agir e receber, ou seja, como agressividade e intuição, respectivamente. Em um indivíduo com uma identidade sexual estabilizada, a despeito da sua orientação sexual, essas duas energias estão em equilíbrio, para fazer escolhas adultas independentes e responsáveis ou, em outros termos, saudáveis ao invés de neuróticas. Assim, o modo como as energias agressiva e intuitiva se organizaram na criança terá influência fundamental nas possibilidades que o púbere e, posteriormente, o adolescente terá para combina-las à energia sexual e às exigências afetivas e performáticas das próximas fases do desenvolvimento.

Essa nuance é relevante porque, desse entrelaçamento complexo, bem sucedido, depende a  evolução da identidade sexual saudável e a personalidade integrada.

 Para a AP, a angústia adolescente não remete ao luto pela perda da bissexualidade mas sim, à angústia que começa a surgir da necessidade de se colocar na vida com projeto, conceitos e valores próprios; somados à angustia referente às lacunas na integração do feminino e masculino na infância. Essa equação permitirá ao adolescente e, depois, ao adulto, fazer escolhas e ter projetos genuínos em todos os campos da vida: sexual, afetivo e profissional.

Naturalmente, as lacunas afetivas infantis vêm dos modelos de função de pai e mãe que existiram. A complexidade do seu contexto de desenvolvimento sócio-emocional, porém, a fez organizar, do jeito possível, sua energia masculina: capacidade para buscar satisfazer suas necessidades íntimas ou vontades, reagir a isso quando o grau de autonomia ainda não a permitisse realizá-los: fazer birra, desenvolver sintomas psicossomáticos e, até, se masturbar; ou não. 

 No adulto, a angústia localizada na orientação sexual, representa a dificuldade de integrar o feminino-sentir- e o masculino-agir- no mundo. Esse é um detalhe importante para apreciação teórico-clínica. Muitas vezes a angústia localizada na orientação sexual não está relacionada ao desenvolvimento da sexualidade estrito senso e sim, à capacidade de integrar os elementos feminino ou masculino à sua vida sexual com os parceiros, o que conferiria às pessoas a sensação de realizacão afetiva, de vida flúida e criativa. Se o impulso, geneticamente, se organiza para o encontro de uma completude que na vida real nunca acontece – isso é o que definiria a espécie humana pela falta-; a sensação de completude em um ato sexual com intimidade tem seu correlato numa vida que integra o feminino e masculino advindos da energia sexual, ao agir e sentir integrados e equilibrados. Isso definiria um indivíduo espontâneo e criativo.

A energia ou elemento feminino e masculino vistos dessa perspectiva dispensam a bissexualidade infantil. O brincar, entendido como ação criativa no mundo, abarca o feminino e o masculino e substitui o erotismo infantil agente. As atmosferas/ climas inibitórios vindos dos modelos de pai e mãe explicam os bloqueios da espontaneidade na vida infantil e os bloqueios nos modelos masculinos e femininos pré-existentes ao advento da energia sexual. Os climas facilitadores vindos dos modelos de pai e mãe pré-existentes ao advento da energia sexual, permitem a ação criativa, bojo da futura expansão sexual curiosa e genuína.

O superinvestimento intelectual como defesa (negação) das inquietudes sexuais na adolescência, naturalmente, acontece. Mas o salto na capacidade intelectual que ocorre na adolescência é um advento paralelo, previsto geneticamente, como o advento da energia sexual. A capacidade egóica de criar racionalizações como mecanismo para impedir o acesso aos conteúdos angustiantes se sofistica, na adolescência, mas não é exclusiva da adolescência. Ela se sofistica, nessa fase, justamente porque o adolescente passa a lidar não somente com as angústias relativas à integração da agressividade e passividade. A sofisticação intelectual o coloca diante das ambiguidades relativas às suas escolhas morais na vida. Ele começa a sofrer a injunção de organizar sua privacidade e intimidade e, posteriormente, se responsabilizar pelas escolhas que fizer. Ele passa a incluir, no “repertório das angústias”, aquelas relativas aos paradoxos éticos e morais, com graus diversos de consciência sobre elas. Essas serão, para Dias, as defesas de evitação ou narcísicas.

Nenhum dos dois autores nega a importância dos aspectos sócio-culturais na formação da identidade dos sujeitos.  Acredito que o interesse clínico em entender o fenômeno da adolescência como parte do desenvolvimento da espécie tenha os levado ao esmiuçamento da sexualidade. Ambos levam em conta como o superego e as opressões sócio-culturais incrementam e se complementam, no desenvolvimento da espécie, para a formação da subjetividade.

A diferença entre a teoria de Dias e de Aberastury, no meu entender, está na avaliação do papel do erotismo e da sexualidade na infância. Para a AP a complementaridade entre o masculino e o feminino se manifesta, na criança, na espontaneidade. Espontaneidade pode ser definida pela capacidade de ir para a vida, agir e captar os climas psicológicos por meio do sentir, intuir. Esses elementos, balanceados, serão expressos na criatividade da criança. Se ela se desenvolveu de forma saudável tem, em teoria, recursos para explorar de forma curiosa e autêntica a sexualidade na puberdade e adolescência, até a formação da identidade sexual. Essa última compreende os modelos pré-existentes de homem e mulher – pai e mãe-, de feminino e masculino- agir e intuir- e os modelos que serão incorporados a partir da puberdade, somados ao amadurecimento intelectual. Esses três aspectos do desenvolvimento da subjetividade são intrinsecamente ligados, mas têm naturezas distintas.

Não acredito que Aberastury tenha imaginado que a sexualidade explicasse todos os âmbitos da formação da personalidade. Sua leitura da sintomatologia psíquica, contudo, acaba por resumir a economia libidinal adulta aos destinos assumidos pelo erotismo infantil.

Para Dias, as ambiguidades morais ou efeitos superegóicos na formação da identidade não são, necessariamente, endereçados à sexualidade. Eles até podem estar relacionados à experiências traumáticas com memórias de cargas afetivas erotizadas mas, esses casos, em geral, configuram situações em que um carga erótica foi investida, com graus variados de consciência, do adulto para a criança e a marcaram ou traumatizam porque ela não tinha condições emocionais de integrar aquela informação. Condições emocionais de integração significam: possibilidade de reagir, elaborar, em suma, dar sentido à experiência. Essa carga afetiva e clima psicológico podem ser associados à culpa e sentimentos emocional e/ou intelectualmente mais sofisticados nos púberes ou adolescentes, que já têm condições de compreender e avaliar cargas e climas eróticos vindo do adulto.

Portanto, espontaneidade, sexualidade e influência sócio-cultural são três elementos que se entrelaçam na história e desenvolvimento dos sujeitos. Percebo a compreensão de Dias do fenômeno da adolescência como complementar à de Aberastury. Sua contribuição e originalidade, nesse quesito, está ampliar o leque conceitual das experiências definitórias de si– um leque que eleva a criatividade e autoria dos projetos pessoais à condição clinica mais importante para a avaliação de uma vida flúida e emocionalmente satisfatória. Ela contribui, ademais, para uma maior versatilidade na leitura da sintomatologia psicopatológica.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

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Winnicott, D.W. 2005. Playing and Reality. London and New York. Routledge Classics.

 


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