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INTERVENÇÕES PEDAGÓGICAS E TERAPÊUTICAS COM USUÁRIOS DE DROGAS

Dalcy Ângelo Fontanive
Julho, 2001

Antes de mais nada, sustentamos que, no campo do consumo de drogas, é necessário apostar mais na prevenção, via educação, do que no combate ou no tratamento. A prevenção pode ser o caminho mais longo, demorado, trabalhoso e de resultados não palpáveis. Mas é  o mais eficaz, profundo, racional e promissor. Para comprovar, convém lembrar apenas alguns dados acerca do tratamento: 1) Os melhores centros de tratamento de drogadependentes conseguem índices muito baixos de melhora dos seus pacientes. Por exemplo, o Centro Médico de Marmottan, em Paris, dirigido por Claude  Olievenstein e considerado uma instituição  de excelência no atendimento a drogadependentes, alcança resultados positivos próximos aos 30%. No mundo, a média de êxitos atualmente gira em torno de 15%. 2) O próprio conceito de “cura” da dependência está hoje questionado. Com precaução, em lugar de cura, prefere-se adotar as expressões “controle”, “superação”, “melhora”. Segundo Bergeret, um drogadependente não se transforma em ex-usuário. Apenas será um não usuário.

 

Para se pensar a questão do tratamento de usuários de drogas, é preciso considerar várias questões prévias. Uma delas é a classificação dos diversos tipos de usuários. É uma questão polêmica, tanto no sentido de se admitir a hipótese de “tipologizar” os usuários, quanto – admitida esta  “tipologização” – fazer uma proposta de classificação que responda a uma realidade tão complexa. Simplificando, vamos adotar a seguinte classificação: a) usuários sociais; b) usuários problemáticos; c) usuários drogadependentes.

a) usuários sociais: caracterizam-se, além de geralmente serem eventuais, por consumirem drogas ou como resposta a uma “interrogação social” (pressão do grupo, desejo de imitação, necessidade de afirmação), ou em decorrência de estados de angústia por dificuldades relacionais, ou a partir de situações de desajuste e de conflitos familiares, especialmente quando o filho é acusado por problemas familiares, que ele apenas sinaliza. Mais do que um uso habitual, apresentam  um abuso eventual. Estes abusos, quando agudos (podendo chegar a overdoses), decorrem mais de inexperiência, exageros da imaturidade ou  “erro de cálculo”, do que de tentativas conscientes ou inconscientes de autodestruição (suicídio). Este tipo de usuário situa-se comumente na faixa da adolescência. Representa a grande parte da demanda, por parte dos pais, de ajuda médico-psicológica para os filhos. Estes jovens costumam responder bem a intervenções pedagógicas positivas (estímulos, prêmios, elogios por ganhos ou avanços comportamentais) e até negativas (ameaças de descoberta ou de punição, castigos e privações). Outrossim, respondem bem a qualquer abordagem terapêutica, especialmente  à terapias breves de cunho psicanalítico  e à terapias do grupo familiar.

 

 O segundo tipo de consumidor de drogas é o usuário problemático. Compreende pessoas que consomem drogas em decorrência de comorbidades, isto é, presença simultânea de graves quadros neuróticos ou  psicóticos  com  episódios  preocupantes de consumo de drogas. Ou também condutas graves de consumo de drogas (especialmente álcool) associadas a experiências  

traumáticas não devidamente elaboradas e superadas. Ou iguais condutas toxicomaníacas decorrentes de motivações inconscientes, em especial ligadas a sentimentos de culpa e a tendências auto-destrutivas. Nestes casos, a droga é apenas o sintoma mais ruidoso de uma problemática latente. A droga é apenas um recurso temporário de defesa contra a problemática insuperável. A gravidade e a morbidade deste tipo de usuário é bem maior do que o anterior (usuário social). Apresenta freqüentes episódios não  acidentais ou casuais de intoxicação grave, bem  como  tendência a uso prolongado e intenso da droga eleita, o que pode resultar em graves  danos físicos. Medidas pedagógicas de repressão ou de punição têm pouco ou nenhum resultado com este tipo de usuário. Clinicamente, o segredo e a grande preocupação  do profissional (médico-psicólogo) é realizar um adequado diagnóstico diferencial, evitando confundir sintoma com causa, evitando incidir em erro diagnóstico. Terapeuticamente, quando o comportamento de drogadição está alicerçado em quadros psicóticos subjacentes, o paciente demanda acompanhamento  psiquiátrico. Outrossim, de modo geral, este tipo de usuário responde bem a tratamentos que adotam a abstinência e retirada gradativa da droga (geralmente através de curtos períodos de internação). Por fim e em especial, os tratamentos psicanalíticos, atingindo, pela interpretação, os níveis inconscientes do psiquismo, são altamente pertinentes, promissores e eficazes.

 

O terceiro grupo é o  usuário drogadependente ou dependente químico. Compõe o tipo menos freqüente (aproximadamente 10 a 15% dos usuários em geral), porém mais grave dos grupos 

anteriores. Revela acentuada dependência física e os fenômenos da tolerância, progressividade e incurabilidade. Aparentemente não apresenta episódios ou experiências  traumáticas. O uso de droga parece ser uma  “opção “ou um life style. O vínculo sujeito/droga é extremamente forte, de complexa abordagem e de difícil ruptura. A busca da droga é governada pelo mecanismo impulsivo-compulsivo, primitivo, irrestrito, incontrolável. Na hierarquia de valores, a droga ocupa o ápice: razão maior da vida, relega para o segundo plano projetos de vida relacional, ambições  profissionais ou cuidados com a  saúde e a sobrevivência. Registra freqüentes episódios graves de intoxicação, o que parece remeter à  predominância  da pulsão de morte da teoria freudiana. Com este tipo  de usuário as terapias cognitivo-comportamentais e as intervenções psicanalíticas são indicadas e apresentam bom prognóstico terapêutico.

 

Referências bibliográficas  

BERGERET,J. - Toxicomanias: uma visão multidisciplinar . P.Alegre, Artmed,1991.

MERLINO.C. -   Cadernos de Psicanálise da SPCRJ.  Vol. 12.no. 15 Nov. 1995.

OLIEVENSTEIN, C. - Destino do toxicomaníaco.  SPaulo, Almed,1985.

 

Dalcy Angelo Fontanive é psicólogo da CODEPSI.

 Julho 2001 


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