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DISCURSO PESQUISA E PSICANÁLISE

Orimar Prado
Dezembro, 2001

Entre as técnicas de análise qualitativa cujos dados são obtidos por meio de entrevistas, gostaria de destacar a análise da enunciação. Classificada por Bardin (1994) como uma técnica diferenciada de análise de conteúdo, foi apresentada por D’Unrug (1974 ), cuja concepção  de discurso o considera como um processo, e não como um fenômeno dado. A diferença entre analisar um discurso como um enunciado - “produto acabado” ou enquanto enunciação - “processo de elaboração” - consiste em que a segunda  leva em conta os processos inconscientes, que se manifestam na própria produção discursiva - “palavra em ato”, com suas falhas, lapsos, contradições, repetições, etc. Essa técnica tem influências  da  psicanálise, da  lógica  e  da  lingüística, e  leva em conta o sujeito, seu objeto de discurso e o psicanalista  (ou entrevistador), podendo, portanto, ser usada em uma pesquisa cujo  referencial  teórico  é  psicanalítico.

 

A técnica foi utilizada em uma pesquisa com mulheres que foram submetidas à mastectomia  devido ao câncer de mama. Pretendia-se  detectar de que maneira, e até que ponto, a mastectomia  provoca  ressonâncias na imagem do corpo. Os dados deveriam ser colhidos em uma entrevista individual. Foi elaborado um modelo  de entrevista, com perguntas abertas, submetido a um pré-teste. Após, o modelo definitivo foi aplicado e os resultados puderam ser analisados de dois modos. Na análise de conteúdo, os dados foram codificados e condensados em categorias, o que permitiu obter uma visão geral dos  resultados, em termos de freqüências. No entanto, para não perder a especificidade  dos relatos, cada entrevista foi trabalhada segundo a análise da enunciação, o que permitiu  análises mais complexas, para além do que é enunciado.

Cada relato foi transcrito em relação aos temas: sentimentos frente à mudança corporal, logo após mastectomia- sentimentos atuais- relações conjugais (mudanças após cirurgia) - vivência   das mudanças corporais  na puberdade e adolescência. Alguns pontos da análise: destacar temas ou palavras recorrentes, seqüências, utilização de metáforas, metonímias, denegação, etc., o que permitiu levantar hipóteses  e  análises  interpretativas.

 

Não  é o  caso  de  apresentar aqui  os  resultados. Vale destacar que cada relato expressou uma vivência subjetiva particular, ao mesmo tempo em que foi possível certa comparação entre as entrevistas (pois as questões eram standartizadas – mas abertas). Apenas para exemplificar e ilustrar a aplicação da metodologia que está sendo apresentada: uma das questões se referia à atribuição imaginária, pelas entrevistadas, da causa da doença. As respostas que se referiam às causas  externas  foram  predominantes, principalmente a um traumatismo físico. Esse resultado implica numa condensação de proposições bastante  diferentes, tais como: o  traumatismo  pode ser devido a um acidente, ou  a  um  dano corporal  provocado por outrem.

 

 

Há dificuldades em se encontrar instrumentos adequados, pertinentes para se pesquisar questões relativas à subjetividade. A análise da enunciação mostrou-se, nesse caso, uma técnica útil, e com  resultados   bem   produtivos.

 

Bibliografia:

BARDIN, L. – Análise de Conteúdo. Lisboa. Personna. 1994.

 

Orimar Prado é psicóloga da CODEPSI.

Dezembro 2001


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