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A (IN)VISIBILIDADE DAS PRENDAS DOMÉSTICAS

Marize Rena de Queiroz
Maio, 2003

Estas reflexões abordam o impacto do trabalho na vida das mulheres, levando em conta a sobrecarga imposta a elas pelo acúmulo de jornadas.  Atualmente pensa-se nesse impacto sobre a saúde da mulher como um problema de saúde pública, como tratarei neste trabalho.

Neste texto, irei incluir-me quase o tempo todo, porque minha fala será feita levando em conta também a questão de gênero, já que vivo essas questões e lido profissionalmente com mulheres que experimentam as tensões derivadas do acúmulo de múltiplas jornadas.

ENTÃO... VAMOS À REFLEXÃO

Você já pensou no que é trabalho? De modo geral, é a remuneração que dá “status” ao trabalho (Kergoat,1984 e 1996).  Seguindo este raciocínio, o chamado trabalho doméstico, por não ser remunerado, não goza da mesma posição privilegiada nas relações de trabalho.  A simples visibilidade desta definição já é importante para demarcar um território que é pouco explorado e, na maioria das vezes, invisível, que é o trabalho doméstico. O mundo está mudando, a mulher vem ocupando espaços e, conseqüentemente, acumulando tarefas, não percebendo que esta sobrecarga pode ser prejudicial à saúde.  Se para mim, que trabalho com saúde mental,  algumas destas questões ainda eram invisíveis,  imaginem como andam as mulheres que trabalham em outras funções e sequer têm tempo para pensar nas condições em que vivem, ou seja, de pessoa-mulher-trabalhadora.

De modo geral, o papel das mulheres na sociedade brasileira ainda se encontra atrelado a pressupostos machistas e, o que é pior, isto também se refere às mulheres (Hirata e Kergoat,1987-HIRATA,2000 – Capellin,2000).  Acreditamos que as coisas da casa e dos filhos nos pertencem e que estas mesmas coisas não são consideradas como trabalho. Poderíamos chamar de “ideologia do dom”, o que dá ao mundo uma visão menos socializada do trabalho doméstico, ou seja, tudo se passa como se as funções de maternagem não exigissem nenhum esforço e nem  necessidade de aprendizado, já que estão tão atreladas ao feminino, o que às vezes dá a falsa impressão de nascerem conosco.  Isto  envolve, também, um outro fator “estressante” que é a culpa.  Muitas vezes vivemos este sentimento por não gostarmos ou não desempenharmos bem esse papel. Papel esse que tem um grande peso porque nos é atribuído mesmo antes de nascermos... é um papel histórico.... Imagine o peso de  se  mudar  uma história!

Esta é, portanto,  uma visão que faz parte da cultura e que sequer se questiona ou se pensa uma outra forma de ser, independente da classe social. Questionar essa situação, para algumas mulheres, as remete a um vazio existencial, uma espécie de idéia que chamo de “fantasma cultural” do tipo: “não sirvo para nada”, “não sou uma boa mulher” ou “boa mãe”, o que pode se tornar um conflito. Ter os atributos de boa mãe, boa mulher, dona de casa, companheira, etc., é importante para a auto imagem e valorização enquanto mulher. É confuso pensar: “eu não sou nada disto e sou uma boa mulher”. Tudo isto tem a ver com a feminilidade, as mulheres negando-se ao comportamento do grupo, negam-se a si mesmas.

Estas questões são percebidas por mim em várias situações e de forma muito clara através do meu trabalho clínico de consultório e em um projeto social numa favela do Rio de Janeiro.   Desta maneira, o não reconhecimento destas questões torna  invisível para as mulheres a sobrecarga de trabalho que socialmente lhes é imposta.  Não só de trabalho, mas – o que também é pior – de papéis e que estão diretamente ligados à feminilidade.

Só tomamos consciência da sobrecarga quando aparece o chamado “cansaço” em forma de algum sintoma orgânico ou psíquico e que surge, na maioria das vezes, no que denominamos, na atualidade, de manifestações de estresse . No  senso comum, quando uma mulher é muito irritada, "reclamona" ou “brigona”, fala-se...., “...essa mulher é histérica.....!!!.”,  e os psicoterapeutas poderiam dizer polidamente, patologizando  a questão.... “poliqueixosa”.

Noto que o sentimento de desvalorização que a mulher vive diante do trabalho doméstico também a faz sofrer. Essa desvalorização se dá por este tipo de trabalho não ter uma qualificação formal, o que é muito valorizado em nossa sociedade.  Porém, não estou dizendo que esta qualificação não exista, ela é adquirida com outras mulheres através de bate papos informais, revistas, livros de receitas, televisão e etc.  Sabe-se que em qualquer situação de trabalho  ninguém gosta de não ser reconhecido pelo que faz, já que o reconhecimento, entre outras coisas, é uma forma de auto valorização e importante para o ego, uma espécie de realimentação do mesmo, onde ele reencontra forças para dar continuidade ao que produz para a vida. No entanto, na maioria das vezes, essa desvalorização é da mulher  para com ela mesma e não apenas uma afirmação de fora para dentro. 

É muito interessante a quantidade de mulheres que relatam queixas como,  cansaço e indisposição para o sexo, mas que não as apresentavam antes de terem filhos ou uma vida de trabalho mais intensa. Sei que isto também pode ter outras causas, porém, minha preocupação neste momento é tornar visível este aspecto das condições de saúde das ditas “prendas domésticas”, trabalho doméstico (não remunerado) e trabalho remunerado fora ou dentro de casa.  Observo, freqüentemente, uma queixa que é meio difusa e sempre se remete a uma falta...que a psicanálise atribui a uma “falta narcísica” da mulher, relativa à castração. Ao atribuirmos sempre a dor da mulher a esta questão (falta narcísica), podemos incorrer no risco de não abrirmos espaço para dar visibilidade a outras possibilidades.  Mais uma vez, penso que isso pode estar sendo uma escuta surda do discurso feminino, já que o trabalho e o cansaço provenientes da rotina diária doméstica podem agravar este sintoma cuja causa real pode não estar sendo percebida.

É sabido que no campo da subjetividade as mudanças profundas são mais lentas, nem sempre acompanham os passos das mudanças sociais. Com as alterações nas formas de organização das famílias, as mulheres assumem posições não só no mercado de trabalho como também na vida, principalmente na vida interior.  Entre as diversas jornadas que vêm surgindo, as mulheres vêm ocupando uma a mais, a dos relacionamentos amorosos. Trabalhar fora, trabalhar em casa, ser mãe e dedicar-se aos cuidados da maternagem, ter um namoradoo que implica em dedicação, além de ter que conciliar esta tarefa ao bom relacionamento com os filhos, que podem ser de outros relacionamentos seus ou de seus parceiros, o que é agravado, ainda mais, pelo tempo que a mulher perde com os cuidados do corpo.

Parece que para dar conta disto tudo necessita um certo malabarismo. Dentro desse circo, as mulheres andam equilibrando-se, mesmo, na corda bamba entre a saúde e o “stress”.

Nos últimos anos  temos observado com muita freqüência a “síndrome do pânico” que surge  como um dos produtos finais desse malabarismo.  No século  XIX, falava-se de histeria. No século passado e neste, fala-se de “síndrome do pânico”. Quem sabe abrindo-se um espaço para abordar estas questões das mulheres, passaremos a falar do cansaço e do “stress” como doença da moda e assim encontraremos soluções menos circenses para as mulheres?

CONCLUSÃO

Em todo trabalho feito a respeito do chamado “stress”, é tido como importante o reconhecimento dos fatores “estressantes”.  Neste caso, dada a invisibilidade da questão, seria possível fazer um trabalho preventivo?

Repensando dentro de minha prática de cuidadora de saúde,  acredito que ajudar as pessoas a tomar este tipo de consciência sobre as questões das mulheres, as  ajudará bastante a reconhecer seus limites e seu potencial e, assim, a ter uma vida menos conflituosa e, conseqüentemente, menos dolorosa e mais saudável.   

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

KERGOAT,Danièle, 1984.  Em defesa de uma sociologia das relações Sociais.  Da análise crítica das categorias dominantes à elaboração de uma nova conceituação.  In: O sexo do trabalho.  Rio de Janeiro:  Editora Paz e Terra.

COMBES, D.,HAICAULT,M1987.  Produção e reprodução.  Relações sociais de sexo e de classes.  In:  O sexo  do trabalho . Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra.

HIRATA,2000. Globalização trabalho e gênero.  In:  O valor do simbólico do trabalho e o sujeito contemporâneo.  Porto Alegre:  Artes e Ofícios.

CAPELLIN., 2000.  Os movimentos de trabalhadores e a sociedade brasileira.  In:  História da mulheres no Brasil.  São Paulo: Editora Contexto.

HIRATA, Helena e KERGOAT, Danièle, 1987.  Divisão sexual e psicopatologia do trabalho.  Trabalho apresentado ao IX Encontro anual da ANPOCS,  GT Processo de trabalho e reivindicações sociais.  Águas de São Pedro.

JAGGAR e BORDO,1997. O Corpo e a reprodução da feminilidade: Uma reprodução feminista de Foucault.

VAITSMAN, JENI, 1994. Flexíveis e plurais, casamento e família em circunstancia  pós-modernas / Jeni Vaitsman – Rio de Janeiro: Ed.Rocco.

Marize Rena de Queiroz é psicóloga cooperada da CPI
Maio 2003


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