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Ensaio

A dor como um possível recurso da existência *

Vera Maria da Costa Santos Tostes
5/2006

 

sensação dolorosa inscrita no corpo implica, necessariamente, o seu registro psíquico, que tende a levar o sujeito a vivenciar o sofrimento como emoção difícil de ser definida. No entanto, Enriquez (1999) salienta que dor e sofrimento não pertencem exatamente ao mesmo registro: a dor implica a dimensão corporal enquanto o sofrimento remete aos registros psíquico e moral. “Mas tanto o sofrimento quanto a dor conotam a sujeição, o não-controlável, e podem, por momentos, confundir-se ao atingirem um ponto extremo de intensidade” (p. 145).

 

 Ao escrever “O problema econômico do masoquismo”, Freud se vê mais uma vez obrigado a questionar a função do princípio de prazer no funcionamento psíquico, assinalando que “há tensões prazerosas e relaxamentos desprazerosos de tensão. O estado de excitação sexual constitui o exemplo mais notável de um aumento prazeroso de estímulo desse tipo, mas certamente não é o único” (FREUD, 1924, p. 200). Sendo assim, prazer e desprazer não poderão se manter sempre vinculados ao aumento ou diminuição da excitação, em função de uma tendência masoquista presente nos seres humanos.

 

 Pensar, como Freud, na possibilidade de o princípio de prazer se constituir como “guardião de nossa vida, e não simplesmente de nossa vida mental” (ibid., p. 199), implica considerar a relação deste princípio com as pulsões de vida e morte e com as dinâmicas libidinais e de destruição. Isso porque, ao perder a sua hegemonia, o princípio de prazer vai ter que negociar com o princípio de realidade e com o princípio de Nirvana, sendo que “nenhum desses três princípios é realmente colocado fora de ação por outro” (ibid., p. 201), o que pode gerar conflitos pelo fato de os objetivos serem diferentes para cada um deles. Desse modo, dor e prazer deixam de funcionar como alerta contra o aumento e diminuição da excitação, e passam a ser alvos em si mesmos.

 

 O masoquismo erógeno – “prazer no sofrimento” – encontra-se presente igualmente nos masoquismos feminino e moral. Nestas três formas estabelecidas por Freud, o masoquismo é percebido como um perigo para a vida, pois ele possui a mesma face demoníaca da compulsão à repetição. Freud destaca o masoquismo erógeno primário, que se opõe ao sadismo, como um possível destino da pulsão, ou seja, retorno em direção ao eu (self),

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