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Ensaio

A dor como um possível recurso da existência *

Vera Maria da Costa Santos Tostes
5/2006

traumático. A carência é um ponto de vista de observador. Aquilo que para este último é falta, carência, para o bebê é intrusão, arrombamento – dos limites do eu” (ANDRÉ, 1999, p. 78-79), idéia bastante pertinente para o entendimento das patologias contemporâneas.

No segundo dualismo pulsional a pulsão de morte vai ser descrita como a pulsão sem representação, ou seja, “uma forma de eficácia psíquica que se situa aquém da simbolização”, colocando em evidência o excesso impossível de ser representado. Abre-se, assim, um campo de possibilidades para se pensar o “irrepresentável” na metapsicologia, pois “mesmo privilegiando o corpo da representação e a linguagem (...) Freud jamais submete o corpo exclusivamente ao reinado da pura representação” (FERNANDES, 2002, op. cit., p. 60).           

 

 A dor é excitação que possui uma qualidade diferente da série prazer/desprazer, mantendo, assim, a sua especificidade. Além disso, é possível assimilar o fenômeno doloroso à dinâmica do trauma marcada por um arrombamento, e pela emergência de quantidades de excitação não ligadas. Nesse sentido, Pontalis (1977) assinala que a dor é também arrombamento, ou seja, “supõe a existência de limites: limites do corpo, limites do eu; ela provoca uma descarga interna, aquilo que se poderia chamar um efeito de implosão” (p. 258).

 

 Freud enxerga na dor o elo imprescindível, de ligação e passagem, entre o psiquismo e seu corpo. Isso porque a dor ultrapassa as fronteiras do espaço físico, articulando-se intimamente com o pulsional. A dor é um fenômeno misto que emerge sempre no nível de um limite, “seja o limite impreciso entre o corpo e a psique, seja entre o eu e o outro, ou, principalmente, entre o funcionamento bem regulado do psiquismo e o seu desregramento” (NASIO, 1997, p. 19), o que impossibilita de se ter uma visão unilateral a respeito da dor.

 

 Desse modo, tanto a dor pode ser erogeneizada, tornando-se fonte de prazer, como também a erogeneização de determinado órgão pode se transformar numa sensação dolorosa capaz de gerar intenso desprazer. Essa

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