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Ensaio

A dor como um possível recurso da existência *

Vera Maria da Costa Santos Tostes
5/2006

 

dor acedemos à condição de sujeitos de nossas vidas (GROMANN, 1999). Porém, existem situações onde não é possível relacionar a dor física com uma dor anímica, exigindo da parte do ego uma reação defensiva capaz de lhe garantir a sua sobrevivência. Trata-se de uma dor impossível de ser inscrita, dor agida, sem representação. Qual seria, então, a marca originária da dor? Ferenczi (1932) ressalta uma dor que está fora do circuito prazer-desprazer, portanto, “uma grande dor” sem representação, em que o sujeito está fora do tempo (presente-passado-futuro). A “dor presente” causa uma dor maior do que aquela suscitada pela lembrança da dor do passado. Trata-se, então, muito mais de dor do que de desprazer.

 

 Em “Inibições, sintomas e ansiedade”, Freud retoma a questão da dor, ressaltando dois aspectos importantes. Em primeiro lugar, a dor psíquica se alterna e substitui a dor corporal, havendo, assim, a passagem do investimento narcísico para o investimento objetal. Em segundo lugar, não é angústia, mas ausência da mãe que provoca dor no bebê, que ainda não consegue distinguir uma “ausência temporária” de uma “perda permanente” (FREUD, 1926 [1925]). Portanto, é a idéia da ausência do outro que está na origem de toda dor, seja ela somática ou psíquica, o que caracteriza uma situação traumática.

 

 A dor e o trauma são, então, fenômenos da ordem do inassimilável, que se apresentam como estrangeiros no espaço da representação. Nesse sentido, Fernandes (2002, op. cit.) assinala a mudança de enfoque na concepção freudiana do trauma, definido em 1920 como a impossibilidade de elaboração do aparelho psíquico frente às intensidades pulsionais. Em 1926, a situação traumática será considerada em termos de uma dor advinda da ausência materna, promovendo no psiquismo uma desintrincação pulsional. A ausência da mãe tem efeito traumático à medida que representa a falta de um escudo que proteja o bebê não só das excitações externas, mas também das sensações provenientes do interior de seu próprio corpo.        

 

 No entanto, muito mais do que a falta de um escudo psíquico de proteção, trata-se de levar em conta a invasão provocada por essa falta, pois não há carência para o lactente, uma vez que “para este, sempre é demais, sempre

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