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Ensaio

Para não dizer que não falei de flores: Considerações acerca da AIDS e do universo religioso

José Henrique Lobato Viana
6/2001

divino.”(1997:72). Como que em uma continuação das especulações do mundo antigo, que algumas das vezes, faziam da doença um castigo divino, o Arcebispo reiterava a idéia punitiva perante o ser humano. Doenças antigas, como a lepra, sífilis, se juntam as modernas fantasias em torno da tuberculose, do câncer e mais recentemente, da aids, que passam também a serem vistas e referendadas como “formas de auto-julgamento, de auto-traição.”(Sontag, 1984:52). Este artigo de Dom Eugênio, foi um dos primeiros constructos com o viés religioso. Nele a visão moral toma corpo, direcionando o leitor para a idéia de uma revolta divina para os “excessos” da carne.

 

Com o advento da aids, a exaltação do discurso místico-religioso pode vir a se estruturar de forma a contemplar determinados setores hierárquicos, onde a figura do divino é aquela que controla e comanda as emoções,os afetos. As relações de reciprocidade que atravessam os espaços institucionais se modelam, nesse sentido a partir da visão do castigo, determinando preconceitos para com todos que fogem dos ditames instituídos. A idéia de pecado ou ira divinal, por exemplo, envolveram discursos nos mais variados artigos propagados em expressivas publicações dos meios de comunicação. Tais argumentos não se restringiram meramente ao universo religioso, sua propagação alcançou esferas mais amplas, formando opiniões, pensamentos. A idéia metafórica acerca da aids se tornou presente em falas de expoentes dessas ordens, tais como a da aids ser um castigo dirigido merecidamente aos homossexuais, em que ela era representada como “a condenação divina de uma sociedade que não vive conforme os mandamentos de Deus.”(Sontag, 1989:73), ou mesmo como “conseqüência da decadência moral,um castigo de Deus e vingança da natureza”.(ibidem).

 

A partir de tais expressões, o que se pode pensar é o possível estabelecimento de uma cultura da intolerância para com aqueles que de alguma forma apontam para a diferença, nesse caso específico, a diferença sexual, ou melhor, as diferentes maneiras de expressão da afetividade, da sexualidade. O diferente, o estranho que “invade” e “traz” a doença para a comunidade “sã”.

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