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Ensaio

A dor como um possível recurso da existência *

Vera Maria da Costa Santos Tostes
5/2006

 

 A questão da dor nos remete às formulações no “Projeto” de 1895, onde Freud contrapõe as vivências de satisfação e de dor, correlacionando-as aos registros prazer e desprazer. Porém, a temática da dor já havia sido abordada, anteriormente, em “Tratamento psíquico – ou mental” (1890), aparecendo também no Manuscrito G, sobre a melancolia (1895b), e mais tarde em “Além do princípio de prazer” (1920), e nos textos de 1924 e 1926 sobre o masoquismo e a angústia.

 Freud entende que as experiências de satisfação e de dor, em sua origem, estariam muito próximas: o que impulsiona a “ação específica”, no sentido de obter satisfação e evitar dor, é a tendência a descarregar o aumento das quantidades de excitação no sistema psi, evitando, assim, o desprazer. Em termos da gênese do aparelho psíquico, o que vai estar em jogo não é o desprazer em si, mas uma dor anterior à experiência de satisfação, fazendo com que esta venha se concretizar na iminência da situação dolorosa. Se a vivência da satisfação permite pensar o aparelho psíquico como desejante, constituído a partir de um objeto perdido, a vivência da dor acaba por viabilizar a defesa primária, a constituição do ego e os processos secundários (FREUD, 1895a).

 Segundo Delouya (1999), há em Freud uma tentativa de reunir os aspectos múltiplos e paradoxais que a experiência da dor comporta. A dor encontra-se ao lado do amor, no ponto em que Tânatos e Eros se juntam na luta desesperada em preservar as ligações, ou mesmo ampliá-las, pois “é com a dor que se concebe o outro” (p. 31). A dor do anseio em direção ao objeto de origem registra, no psiquismo, os próprios movimentos corporais em associação à resposta do objeto. Ou seja, a dor participa de maneira intensa na construção do objeto ou nas suas correlatas funções no sujeito, como aparece no “Projeto”. O autor salienta que “a dor não é, como a angústia, um sinal de alerta, mas já é um efeito da resposta a uma efração que implica um esforço de ligação” (ibid, p. 24) de um excesso de invasão no aparelho psíquico.

 Se a dor é constitutiva de nossa subjetividade, que recursos possuímos para tolerá-la? O ego traz em si um vivido, isto é, um sentido do corpo, pois o que sentimos na pele nos faz conhecedores do nosso eu: através da

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