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Ensaio

A dor como um possível recurso da existência *

Vera Maria da Costa Santos Tostes
5/2006

 

apresentando uma grande dificuldade de aceder à verbalização. Como a dimensão traumática da subjetividade extrapola o campo do aparato psíquico representacional, é fundamental que o analista possa conter a dor do outro, propiciando novas ligações ativadas por Eros.

 

 Ao ter sua vida psíquica em parte devastada por aspectos traumáticos, o sujeito age a dor, sendo incapaz de significá-la. Daí a extraordinária freqüência de atuações no decorrer da análise. Encontramos, no campo da psicossomática, a ação da dor através do adoecimento, pois o que não pode ser nominado se apresenta “encenado” no próprio corpo. Sendo assim, a situação transferencial vai proporcionar ao analisando a oportunidade de dar forma aos afetos, não inscritos na cadeia psíquica devido ao efeito do transbordamento pulsional provocado pela experiência traumática.

 

 Winnicott (1955-1956), por sua vez, ampliou a noção de transferência ao trabalhar com os casos fronteiriços e com as fases psicóticas que ocorrem na análise de pacientes neuróticos. Salienta que, nestes casos, é impossível que uma “neurose de transferência” venha se constituir, pois não existe ainda “um ego capaz de manter defesas contra a ansiedade provocada pela pulsão” (p. 484). O autor chama atenção para a função do setting, considerando-o mais importante que a interpretação. Ou seja, por ser “suficientemente bom”, o setting – e aí se inclui a postura do analista – faz nascer a esperança de que o self verdadeiro pode, finalmente, assumir os riscos que lhe foram impostos no início da vida, enquanto o ego “é capaz de experimentar os impulsos do id e de sofrer as conseqüências disso” (ibid., p. 489), caminhando em direção a um viver mais criativo.

 

 A mãe investe libidinalmente o corpo do bebê, apaziguando as sensações desagradáveis, devolvendo-lhe o seu bem-estar. Esse outro maternal tem a capacidade de transformar o corpo biológico em um corpo erógeno habitado pela linguagem, condição necessária para se ter acesso à simbolização. Do mesmo modo, a análise vai promover uma verdadeira libidinização, à medida que o outro-analista, em sua função alteritária, investe o corpo do paciente, acolhendo o sofrimento e nomeando as sensações deste corpo, transformando-o em um “corpo falado”, passível de ser abordado pela psicanálise (FERNANDES, 2002, op. cit.).   

 

 A clínica psicanalítica concebe a transferência como um modo peculiar de “agir as paixões”. Analisar significa ter a capacidade de ser afetado e interpelado pelo sofrimento do outro. Portanto, a palavra do analista tem que ser

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