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Ensaio

A dor como um possível recurso da existência *

Vera Maria da Costa Santos Tostes
5/2006

 

psicossomáticas, as experiências de dor, as “passagens ao ato”, as adicções em geral (patologias alimentares, toxicomanias, compulsões etc.). Ou seja, o corpo vai ser convocado a “falar”, dependendo da qualidade de excitação que não pôde ser ligada pela via psíquica. Segundo Kristeva (2002), estamos diante de uma exacerbada “redução da vida interior”, de uma robotização da linguagem, de uma dificuldade de representação: “o corpo conquista o território invisível da alma. Daí o ato” (p. 14).

 

 Nesse sentido, Pinheiro (2003) coloca em evidência a questão do vivido psíquico expresso tanto por palavras quanto por sensações corporais. Frente à tendência atual de considerar “a sensação corporal como o último reduto da subjetividade humana”, a autora faz uma pertinente distinção entre emoção e sensação: “Se, por um lado, da emoção proliferam palavras, metáforas e deslizamentos de significantes, por outro, as emoções, os sentimentos e os afetos têm sempre uma expressão no corpo, ou seja, comportam necessariamente um substrato corporal” (p. 17). Falar de “sensação corporal” requer, muitas vezes, pensá-la como uma experiência de pura corporeidade. Trata-se de “um corpo quase mudo”, que é só sensação, sem muitas palavras e metáforas.

 

 Por outro lado, a psicanálise como “restauradora” de memória busca recuperar um saber que se perdeu, mas que pode retornar a qualquer momento, nos sonhos, nos sintomas, nos atos falhos etc. Para isso, lança mão da “associação livre”, prestigiando a linguagem como fala. Entretanto, temos sublinhado a necessidade de se levar em conta a dimensão da corporeidade na transferência, principalmente nos casos onde as palavras são substituídas por gestos e imagens que passam por um outro registro, e que estão à espera de um sentido. Neste caso, não se trata de induzir o paciente a uma associação-dissociação de idéias, mas de propiciar uma associação de sensações capaz de dar voz ao “irrepresentável”.

 

 Vale ressaltar que o analista não detém o código interpretativo no registro clínico. Pelo contrário, ele precisa inventar a sua linguagem para dizer algo. O exercício de interpretar implica a busca de uma interpretação ao nível

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