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Artigo

COMPORTAMENTO DE RISCO NA ADOLESCÊNCIA

Cecília Leite Costa
8/2018

COMPORTAMENTO DE RISCO NA ADOLESCÊNCIA O texto levanta algumas considerações iniciais sobre a adolescência, com o objetivo de ser uma reflexão acessível a leigos. Assumo uma perspectiva desenvolvimentista, como a de Erickson ou Aberastury (Adolescência Normal) e tomo como base a Teoria do desenvolvimento da Identidade Sexual de Dias (teoria da Programação Cenestésica). Isso quer dizer que o foco do ensaio está no desenvolvimento sexual e na entrada nos comportamentos erotizados, a partir da puberdade. Portanto, considero o conceito de adolescência que se estabilizou do século passado para cá: um período de maturação biológica e de transformação e estabilização psicológica para uma nova fase do ciclo vital: a juventude. A maioria dos autores considera que a adolescência surge como categoria ou conceito no século XX, na esteira dos movimentos jovens dos anos 20, na Alemanha. Essa foi a primeira tentativa de busca de autonomia e auto definição do que significa ser jovem. Posteriormente, ela é incrementada na década de 40, com o Swing, música jovem americana, identificada com os ideais de liberdade e rebeldia, que passam a ser expressão da juventude como um todo e, em especial, da adolescência. Os adolescentes começam a integrar uma categoria específica na época da Segunda Guerra, porque começam a trabalhar e ter, financeiramente, algum grau de autonomia. Começam a representar um novo poder como consumidores de moda, música, filmes, em suma, de arte de um modo geral. Dessa forma, criam um novo estrato social, se tornam atores políticos que representam conceitos, anseios e necessidades próprias. Ao cabo de 80 anos, depois da revolução sexual e dos costumes dos anos 60, ainda encontramos um adolescente como o do meio do século passado, no que toca a ser cobrado com respeito ao ingresso na vida adulta e o sucesso nas performances sociais. O ingresso na vida adulta, contudo, foi muito postergado em função das exigências de especialização profissional que, por sua vez, justificam a permanência no lar da família de origem. Ao lado disso, as famílias nucleares foram multiplicadas, implicando na convivência com valores, ideias e crenças distintos no mesmo ambiente familiar (Vargas e Nelson, in Schoen-Ferreira e Cols, 2010). E, por fim, a revolução tecnológica digital e a s novas formas de convívio virtual (redes sociais) implicaram em uma transformacão radical não só na comunicação e nos costumes, mas nas formas de se relacionar, se exprimir e, por conseguinte, de pertencer. Para além da incidência dos aspectos socioculturais, a personalidade também se constrói, evolutivamente, no binômio: biofenomenológico-psicológico. Em termos biológicos, transformações ocorrem nos indivíduos, nessa faixa etária, com o surgimento dos hormônios sexuais. Esse momento se caracteriza por comportamentos e necessidades específicos, decorrentes do surgimento da energia sexual. Em termos psicológicos, essas transformações implicam em estar e se sentir de forma diferente no mundo. Além das inquietações, desejos e necessidades relativos à inserção social, os adolescentes: • Começam a criar referências próprias: de modelos masculinos e femininos, • Começam a transitar pelo jogos de sedução e interação com os possíveis parceiros sexuais/ amorosos. Isso significa querer pertencer aos grupos considerados bem sucedidos: nos esportes, na vida social (namorar, dançar, tocar na banda, etc), em suma, aos grupos que representam performances sociais valorizadas. Não só por isso, mas também em consequência disso, é um momento em que é comum o rendimento acadêmico cair, visto que a energia e a atenção estão voltados para outras atividades e experiências. O desinteresse e a falta de motivação acabam contribuindo para a queda no desempenho escolar. Começam a experimentar a questão/ problema existencial relativa ao projeto de vida pessoal: Quem eu sou, o que eu quero, no que eu acredito, o que eu preciso, o que eu vou fazer da vida. Esse é o momento em que começam a deixar de ocupar o posto da expectativa do projeto dos pais para eles, para começarem a construir um projeto de vida próprio: uma nova condição existencial que se estende para o resto da vida. Dessa perspectiva, a adolescência começa na puberdade com: • Produção dos hormônios estrogênio e progesterona nas meninas e da testosterona nos meninos; • Amadurecimento das mamas, do útero e da vagina nas meninas e do pênis e testículos nos meninos; • Aparecimento dos pêlos pubianos nas meninas e meninos; • Modificação da cintura escapular e pélvica nas meninas, aparecimento dos pêlos faciais nos meninos; • Primeira menstruação nas meninas, primeira ejaculação nos meninos; O surgimento dos hormônios sexuais e das mudanças corporais acarretam em mudanças psicológicas, ligadas à erotização sexual que marca, daí em diante, os interesses e necessidades dos adolescentes. As sensações novas provenientes da energia sexual trazem a estranheza e o desconforto esperados nas situações em que se lida com o desconhecido. Ao começarem a entrar em contato com a energia sexual e o interesse erótico pelo outro, surge a necessidade de mais privacidade e de cultivar espaços de intimidade, o que faz com que se afastem dos pais e criem uma maior cumplicidade com os amigos. A dificuldade em aceitar o próprio corpo também é um aspecto recorrente, tendo em vista que o corpo muda mais rápido do que a elaboração do esquema corporal- ou seja,o corpo muda mais rápido do que a imagem que se tem dele-, trazendo baixa na autoestima e suscetibilidade- é o período das espinhas, das estrias, etc… A puberdade- primeira fase da adolescência- é situada entre os 9, 10 até os 14 anos e tem como caraterística central, do ponto de vista psicológico, a incorporação de outras referências identitárias, tanto masculinas, quanto femininas. Nesse momento, elas ficam simbolizadas nos heróis, nos astros, em suma, nos ídolos que encarnam o homem ou a mulher que eles desejam ser. É muito comum que esses traços de personalidade que o garoto(a) admira estejam presentes em um grande amigo(a). Os grandes amigxs representam o genuíno, o autêntico, o diferente do que é familiar, por um lado e o que eles consideram ser bem sucedido nas performances que desejam alcançar, por outro . A segunda fase da adolescência vai dos 14 aos 19 anos, em média . Além da cultivo da intimidade e da cumplicidade com os amigos, esse é um período marcado pelo desejo de experimentar, de ultrapassar fronteiras e de compartilhar as novidades com os amigos; estar em sintonia com eles. Nesse momento, as relações já implicam em atração erótica e são marcadas pela fase da intensidade dos sentimentos: é o início dos namoros, com intensos sentimentos de incondicionalidade. É também o momento em que o contato erotizado com o outro traz a curiosidade e a necessidade de sentir e “entender” como o outro se sente. O desejo de estar em sintonia no encontro sexual e amoroso faz com que se interessem e comecem a experimentar a excitação que surge com a excitação do outro, instalando a dança interacional que chamamos de sexo. A conclusão dessa etapa permite aos agora rapazes e moças, entrarem nos jogos de sedução e amorosos, cujas regras são tácitas- não são aprendidas em livros. Completar a Identidade Sexual significa dizer que tanto os rapazes quanto as moças começam a ter sintonia como se sente uma mulher e um homem numa relação erotizada. Essa sintonia é aprendida na experimentação e na troca cúmplice e íntima com os pares . Para além do erotismo, consideramos parte da formação da Identidade Sexual o desenvolvimento moral e intelectual. Também faz parte da formação do modelo masculino ou feminino idealizado a admiração e deferência dos adolescentes pelos valores, crenças e ideias que seus ídolos representam. E, se no campo sexual a experimentação pode ser ainda titubeante, a capacidade lógica e argumentativa já está plenamente instituída . Assim, a energia e o desejo de descobrir, de experimentar, somados à capacidade de argumentar, se traduzem no imediatismo e, em consequência, na frustração e irritabilidade; porque nem sempre é possível fazer apenas o que se quer e realizar coisas que o grau de autonomia, naquele momento, não permite (idade, autonomia financeira, etc..). Eis uma das hipóteses possíveis para as flutuações de humor inerentes à adolescência. Por outro lado, a construção de conceitos próprios implica questionar a fronteira entre certo e errado, transgredir as instituições que representam a norma, o conservadorismo e em experimentar, a fim de pertencer ao grupo e compartilhar a experiência transgressora. Nesse ponto chegamos às situações e comportamentos de risco. Se juventude está atrelada à rebeldia e liberdade está, naturalmente, associada às drogas e ao álcool - ícones da transgressão. Achar a medida certa entre experimentar, buscar e, por outro lado, frear, dar limite, negar, é uma tarefa árdua. Em geral, o discurso das autoridades competentes atuais: pais, psicólogos, psiquiatras, psicanalistas, psicopedagogos, educadores, dentre outros, é dúbio: experimente, mas não tanto; seja original, mas seja adequado; se coloque, se posicione (i. é, confronte), mas cumpra as regras (não confronte); escolha a profissão que quiser, desde que seja o que esperamos que você escolha (não nos desaponte). De fato, é uma tarefa demandante. Assim como é demandante a postura de coragem, por parte dos pais, para conversar sobre a extrapolação desse limites e sobre condutas que podem ter um alto custo, quando não irreversível. Não existe manual que estipule até que ponto uma pessoa seja corajosa, autêntica e em que ponto se torne um dependente ou um viciado, por exemplo. Ou qual o limite “saudável” entre a aventura de sair escondido com o carro do pai e se ver num acidente com a perda de sentidos, movimentos e, eventualmente, a morte de alguém. Se tudo der certo, nunca imaginamos que isso acontecerá conosco. A expectativa desses disparadores é abrir espaço para uma conversa franca sobre as sutilezas e desafios de se lidar com a adolescência. Percebo a adolescência como um momento de resistência - ao conhecido, familiar, antigo - e de grande originalidade. Adolescer, etimologicamente, significa crescer para. Adolescer, contudo, não é somente migrar para a fase adulta (se entendermos como fase adulta alcançar certas performances socialmente esperadas: carreira profissional e vida familiar bem sucedida. Adolescer é também surpreender. Encontrar um boa medida entre experimentar e parar e entre inovar e se adequar pode estar na base para uma adolescência bem vivida. E uma adolescência bem vivida ou resolvida é a base para um projeto de vida adulto pessoal e integrado. REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS Aberastury,A.,Knobel, M.,Ferrer, E.S,L, Goldstein, R.Z., Jarast, S.G, Kalian, E., Paz, L.R. & Rolla, E.H (1980). Adolescência. Porto Alegre: Artes Médicas. __________(1981). Adolescência Normal. Porto Alegre: Artes Médicas. Beni, R. in Dias, R.C.S.V & Cols. (2012). Psicopatologia e Psicodinâmica na Análise Psicodramática.IV. São Paulo. Ágora. Corso. D.L. & Corso, M. (2018). Adolescência em Cartaz: Filmes e Psicanálise para entendê-la. São Paulo. Artmed. Dias, R.C.S.V. (1987) Psicodrama- Teoria e Prática. São Paulo. Ágora. ____________. (1996). Identidade Sexual. In Sonhos e Psicodrama. São Paulo. Ágora. Savage, John (2007) Teenage: The Criation of the Youth:--------- Shoen-Ferreira. T.H. & Aznar-Farias, M. & Silvares,E.F.M.S. (Abr-Jun-2010, Vol.26 n.@ pp.227-234). Adolescência através dos Tempos. Universidade Federal de São Paulo e Universidade De São Paulo. < voltar
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