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Artigo

PSICANÁLISE, NEUROSE E VIOLÊNCIA.

Fernanda Hamann de Oliveira
1/2016

   Na década de 1890, Freud era um neurologista impressionado diante de pacientes que sofriam de um tipo de neurose chamado de histeria. A maioria eram mulheres. O impressionante era que os sintomas delas pareciam neurológicos, mas não eram. As pacientes chegavam com um membro paralisado, ou anestesiado, ou uma cegueira súbita, ou falando em alguma língua estrangeira devido ao misterioso esquecimento da língua materna. E Freud (1893) percebeu, surpreso, que não havia qualquer lesão do sistema nervoso que justificasse esses sintomas – ou seja, não eram sintomas neurológicos, e sim neuróticos. As paralisias, anestesias e outras manifestações histéricas eram causadas por um acontecimento traumático: um choque acompanhado de intensas emoções, ou uma vivência violenta demais para ser assimilada, que deixava marcas no psiquismo e resultava em sintomas no corpo.

 

   O acontecimento traumático, nesses casos, não consistia num acidente ou numa fatalidade violenta em si, mas numa situação violenta para o sujeito – alguma experiência ou alguma ideia, geralmente de conteúdo sexual, incompatível com as concepções morais da pessoa. Um dos exemplos dados por Freud é o de uma moça que desejava secretamente o cunhado e, uma vez que a irmã morreu, diante da própria irmã morta, ela pensou que agora, enfim, teria o caminho livre para investir no amado. Este pensamento repugnante precisou ser reprimido e esquecido pela moça – que só conseguiu rememorá-lo sob hipnose – porque entrou em forte conflito com seus valores morais. E a maneira neurótica de lidar com o conflito é o recalque: a ideia incompatível é relegada ao inconsciente, ou seja, é expulsa da cadeia de pensamentos conscientes. Porém, o recalcado continua agindo no psiquismo como um corpo estranho, que se torna ainda mais influente do que era inicialmente. O sintoma é o resultado dessa estratégia neurótica de se defender contra o conflito psíquico. Como ocorre na emblemática cegueira histérica, o sintoma simboliza a recusa do sujeito de encarar uma situação que lhe parece insuportável.

 

   Com o tempo, Freud (1900, 1901) percebeu que certos mecanismos envolvidos na histeria não eram muito diferentes daqueles envolvidos em outras neuroses, ou mesmo na condição de pessoas ditas sadias. Também nestas pessoas, algo de inconsciente se manifestava à sua revelia – como nos sonhos ou nos atos falhos, em que o sujeito imagina ou fala alguma coisa que ele ignora completamente a respeito de si mesmo. Aos poucos, a psicanálise começou a dar mostras de que as diferenças entre patologia e normalidade são quantitativas, o que equivale a dizer que a patologia é uma espécie de exagero da normalidade. Se uma pessoa sai de casa e depois retorna, insegura, para verificar se deixou o forno ligado, trata-se de uma atitude tida como normal. Mas se uma pessoa sai de casa e depois retorna, para verificar o forno, e sai novamente, e retorna em seguida, pois talvez o forno não estivesse completamente desligado, e sai, e volta, porque acha que seria melhor desligar a chave do cano do gás, e assim por diante, podemos suspeitar que adentramos o terreno da neurose obsessiva. Diante dos desafios da vida, há diversas formas de se defender, ou de adoecer. E Freud percebeu que essas formas são consequências da maneira como o sujeito se constitui dentro de uma das três grandes estruturas clínicas: a neurose, a psicose ou a perversão.

 

   É importante observar que a normalidade absoluta, para a psicanálise, é praticamente um ideal. Neste ponto, Caetano Veloso tem razão quando afirma, em sua canção, que “de perto, ninguém é normal”. Na vida real, todos temos nossos segredinhos inconfessáveis. Frente às dificuldades do cotidiano, usamos nossas defesas. E na melhor das hipóteses, ela é uma defesa neurótica – pois neurótico é o sujeito que recalca seus impulsos violentos e sexuais considerados inadequados, para poder viver em sociedade. Por isso mesmo, os não neuróticos – isto é, psicóticos ou perversos – costumam ser mais facilmente associados ao tema da violência.

 

   No caso dos psicóticos – chamados de “loucos” porque alucinam, deliram ou simplesmente parecem alheios à realidade que julgamos compartilhar –, é frequente que o senso comum os considere perigosos e potencialmente violentos, por parecerem imprevisíveis. Não é raro que as pessoas tenham medo deles, medo que contribuiu para a construção de asilos e hospícios para depositá-los, longe dos olhos da sociedade, ao longo dos séculos. No Brasil e em grande parte do mundo, movimentos recentes de reforma psiquiátrica resultaram numa maior circulação social de psicóticos, muitos dos quais são tratados com medicação, psicoterapia e, caso necessário, eventuais internações.

 

   No caso dos perversos, também é frequente que o senso comum os considere perigosos e potencialmente violentos, já que a perversão envolve a busca pela satisfação dos impulsos pelas maneiras mais desviantes. Na fantasia propagada por Hollywood, o perverso é o serial killer, que tem prazer em matar, ou o tarado da esquina, que ataca pobres mocinhas inocentes. Mas o que Freud (1905) descobriu é que a sexualidade humana tem uma base perversa por si só: a maior parte dos meios usados para satisfazer os impulsos sexuais é desviante, pois faz um desvio na trilha da função sexual (um desvio do objetivo de reprodução da espécie). Do mais doce beijo na boca ao mais violento jogo sadomasoquista, há um espectro tão amplo de meios de obter prazer que é difícil imaginar uma relação sexual que não inclua pelo menos um deles, ou seja, é difícil imaginar uma relação reduzida à simples penetração, visando a reprodução. Por outro lado, desejos sexuais desviantes podem entrar em conflito com os valores morais do sujeito. Como vimos, o neurótico se defende contra este tipo de conflito recalcando a ideia incompatível. E aí o perverso se diferencia dele, uma vez que leva a cabo seus meios desviantes de obter prazer. Sobre este assunto, Freud escreveu que a neurose é o negativo da perversão: aquilo que o perverso faz desavergonhadamente, o neurótico recalca. No entanto, é fundamental frisar que os impulsos perversos, ao sofrerem o recalque, são afastados da consciência mas continuam latentes, sem deixar de produzir efeitos sobre a estruturação neurótica.

 

   Os neuróticos – a maioria das pessoas consideradas normais – vivem acossados pelo que Freud (1930) chamou de mal-estar na civilização. Se o sujeito deseja a mulher do próximo (mesmo sabendo que isso é moralmente condenável), ou se ele deseja matar ou agredir alguém, ele se vê obrigado a recalcar esse desejo, para se adequar às normas da civilização. A agressividade recalcada, então, se volta contra ele mesmo.

 

   Esta relação incômoda com o outro – ou ele, ou eu – é ilustrada pela famosa fábula de Schopenhauer, retomada por Freud, sobre porcos-espinhos que precisavam se aquecer num dia muito frio. Seu primeiro movimento foi o de se aproximarem uns dos outros, para desfrutar do calor criado entre os corpos unidos. Este movimento, porém, fez com que eles se espetassem e se machucassem, o que os conduziu ao movimento contrário de afastamento. Entretanto, a distância criada entre os corpos os deixou expostos ao perigo da morte por congelamento. Assim, foram obrigados a se reaproximar, e depois a se afastar novamente, passando de um problema ao outro “até descobrirem uma distância intermediária, na qual podiam mais toleravelmente coexistir” (Freud, 1921). À semelhança do que ocorre com tais porcos-espinhos, é comum que a agressividade se faça presente até mesmo nas relações consideradas mais próximas e familiares, tantas vezes permeadas pela ambivalência afetiva: a coexistência de sentimentos de amor e ódio pela mesma pessoa. É possível encontrar traços extremos de ódio entre vizinhos ou semelhantes, que possuem diversos atributos em comum e poderiam, supostamente, conviver muito bem. É o caso de torcidas de futebol que se massacram a cada vez que se encontram, simplesmente por torcerem por times diferentes – em geral, times de uma mesma localidade ou de localidades vizinhas.

 

   No caso dos grupos ou massas, como as torcidas de futebol, existe uma tendência ainda maior a se afrouxar a repressão dos impulsos violento. Uma pessoa que dificilmente se comportaria de forma violenta pode vir a fazê-lo se estiver contagiada por uma massa engajada em ações destrutivas. O nazismo, fenômeno de massa que contagiou uma nação, confere um testemunho histórico desta possibilidade.

 

   A violência permeia não apenas as relações sociais, de modo geral, mas também a maneira como a civilização se constitui. É esta a constatação que Freud transmite em seu livro Totem e tabu (1913), onde ele propõe um pequeno mito sobre a origem da civilização. Freud nos conta que existia uma horda primitiva governada por um pai soberano. O único a ter direito ao prazer e às mulheres, nesse grupo, era o poderoso tirano. Por isso, todos os filhos nutriam ódio por ele. Decidiram unir forças para matá-lo e devorá-lo. Mas após o festim, o que os uniu foi o sentimento de culpa pelo parricídio. Então, os irmãos assassinos instituíram um acordo: nenhum deles deveria lutar pela sucessão do pai assassinado. E formaram um clã onde o parricídio e o incesto passaram a ser tabus auto-impostos – isto é, uma espécie de contrato social, a que todos deveriam obedecer.

 

   Mais de um século depois, o mito de Totem e tabu ainda é retomado por psicanalistas e pesquisadores ao redor do mundo, para embasar discussões sobre temas como a lei, a moral e a organização social humana. Afinal, o contrato social dos irmãos da horda foi o que tornou possível que eles convivessem acreditando que um não mataria o outro. O que não é muito diferente numa sociedade como a nossa, onde também é proibido matar outra pessoa. Para Freud, se é preciso proibir alguma coisa, é porque nela reside algo que clama por realização, talvez um desejo, ainda que inconsciente – caso contrário, não seria necessário criar um impedimento. Muito provavelmente, cada um dos irmãos gostaria de ter o mesmo poder que tinha o pai primevo, com acesso exclusivo a todas as mulheres do clã. Mas eles concordam em renunciar a essa satisfação, em nome da convivência coletiva. E o que aconteceria se um deles desobedecesse à lei? Os outros certamente se sentiriam no direito de puni-lo, talvez linchá-lo – como se costuma fazer, pelo menos no Brasil, quando ocorrem certos crimes hediondos. Mas não é preciso ir tão longe: numa cultura como a nossa, se uma pessoa mata a outra, ou desobedece a alguma lei, o Estado, como representante institucional da sociedade, tem o direito de puni-la, podendo inclusive usar de violência para isso. A polícia, o braço armado do Estado, tem o monopólio legítimo do uso da força e está autorizada a usá-la para garantir a ordem social. O que Freud deflagrou, assim, é a função da violência na imposição e manutenção da própria ordem social.

 

   Como bem observou o psicanalista francês Charles Melman (2003), qualquer um de nós pode se tornar violento. As crianças, por exemplo, se tornam espontaneamente agressivas contra colegas que elas consideram fracos, desajeitados, deficientes, colegas cuja simples presença é capaz de perturbar a imagem ideal que elas gostariam de ter de si – não por acaso, é preciso fazer um grande esforço pedagógico para reprimir esses impulsos infantis, hoje associados ao chamado bullying. A convivência em casal também dá abertura para situações violentas, quando um dos parceiros, por exemplo, não se sente escutado e tem necessidade de atuar, de explodir, de fazer barulho, para ser notado pelo outro. Há também violências que resultam do meio social, quando, em sua identidade de pertencimento, o sujeito se vê totalmente rejeitado ou menosprezado.

 

   Mas nenhum conceito psicanalítico merece ser tão diretamente associado à violência quanto o conceito de narcisismo, isto é, uma espécie de amor próprio exacerbado, que faz com que o sujeito só enxergue a si mesmo (“espelho, espelho meu...”), tratando o outro como um mero instrumento para sua autopromoção. Quando o narcisista coloca o eu acima de qualquer outra pessoa, ele tenderá a agir com agressividade caso essa pessoa faça alguma coisa em desacordo com seus interesses narcísicos. Nestas situações, não existe espaço para o diálogo e para a diferença. Existe apenas a intolerância.

Infelizmente, vivemos um tempo marcado por um narcisismo extremo. A cultura ocidental contemporânea cultua ideais narcisistas – a beleza física, a preponderância da imagem sobre a palavra, o empuxo ao prazer imediato, as visões de mundo egocêntricas do tipo “farinha pouca, meu pirão primeiro”...

 

   Infelizmente, também, não existe um antídoto contra o narcisismo. Filhos que somos dessa cultura seduzida pela indústria farmacêutica – que se propõe a oferecer analgésicos e anestésicos para qualquer mal, físico ou psíquico –, até gostaríamos de ver difundida a pílula da tolerância e do respeito ao outro, que tornaria mais civilizadas nossas relações sociais. Mas a verdade é que nem todas as soluções podem ser mágicas.

 

   A boa notícia é que ainda dispomos da psicanálise, que não é uma panaceia, nem uma promessa de extinguir magicamente toda forma de autoagressividade, heteroagressividade ou sofrimento, mas é uma oportunidade de construção de uma relação menos narcisista com o outro. Uma oportunidade que exige algumas renúncias e um preço a ser pago. Nem sempre é fácil tocar em certas feridas, ou abrir mão de certas defesas, solidificadas ao longo dos anos. Mas os efeitos que podem ser obtidos deste trabalho permitem ao sujeito experimentar uma nova relação com a vida. Menos neurótica. E mais sintonizada com um desejo que inclui o outro, ao invés de violentá-lo.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Melman, C. (2003) O que me torna violento? A prática psicanalítica hoje: Conferências. Rio de Janeiro: Tempo Freudiano, 2008.

Freud, S. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 2006.

(1893) Estudo comparativo das paralisias motoras orgânicas e histéricas. v. 1.

(1900) A interpretação dos sonhos. v. 4 e v. 5.

(1901) Sobre a psicopatologia da vida cotidiana. v. 6.

(1905) Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. v. 7.

(1913) Totem e tabu. v. 13.

(1920) Além do princípio de prazer. v. 18.

(1921) Psicologia das massas e análise do eu. v. 18.

(1930) O mal-estar na civilização. v. 21.

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