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Resenha

No Caminho de Swann

Maria Helena Mossé
5/2002

 

Recentemente me envolvi na “empreitada” de ler Proust, começando por No Caminho de Swann, tradução de Mário Quintana, Editora Globo.  A abertura do livro é fascinante.  O narrador descreve o momento do seu adormecer, quando, ainda criança, está na cama com um livro nas mãos sob a luz de uma vela.  Pouco a pouco seus pensamentos começam a se embaralhar, a ganhar vida própria e ele passa a ser o personagem do livro.  O menino desperta confuso, sem se dar conta que já havia adormecido. Está perdido no tempo e no espaço. O que é sonho, o que é a realidade? Logo no primeiro parágrafo do livro Proust usa a palavra tempo. E é a sua peculiar concepção do tempo que vai perpassar toda a obra. Tempo, memória e repetição são os temas escolhidos pelo autor para traçar um retrato melancólico do ser humano. Proust mostra a nossa solidão e incapacidade de comunicação. Vemos em algumas passagens pessoas que falam umas com as outras, mas na realidade falam para si mesmas.  Para Proust a repetição e o hábito mimetizam o eterno, fazendo-nos acreditar que driblamos o inexorável da morte.

 

Pura ilusão. O tempo leva os acontecimentos da nossa vida e as pessoas que amamos.  O que nos resta é a memória.  Memória filtrada, seletiva, mas que introduz a dialética da ausência e da presença. A memória pode ser ao mesmo tempo aprisionante e redentora. É através dela que podemos recuperar o passado e reinventar a vida.  A descrição da irrupção involuntária de uma lembrança é um dos aspectos mais perturbadores da narrativa proustiana. A mais conhecida é a das madeleines. O narrador, ao provar uma madeleine embebida no chá, sente irromper, numa fração de segundo, uma série de recordações da infância. São lembranças vivenciadas com a sensação de realidade e, fascinado, ele tenta captá-las para logo descobrir que elas se foram. Mas elas deixaram marcas que permitem que ele, num segundo momento, reconstrua uma parte de seu passado.  Considero importante para nós, psicanalistas, a leitura desta descrição onde Proust mostra que é através de um fato aparentemente banal que pode surgir uma ínfima brecha por onde irá escapar o que está tão bem guardado na memória.

Maria Helena Mossé é psicóloga cooperada da CODEPSI.

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