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Ensaio

A erotização da Infância e os Impactos produzidos pela Obra de Freud nas Sociedades Contemporâneas *

Fernanda Passareni Hamann
1/2005

“Em uma cultura narcísica, o lugar das crianças é crucial. Por serem os representantes forçados de nossos sonhos, elas – e o tipo de amor ou ódio que encontram – revelam imediatamente o momento e o estado de nossa cultura.” (CALLIGARIS, 1996, p. 213)
Em sua famosa obra sobre a História social da criança e da família, ARIÈS (1981) demonstra o quanto é variável a maneira como cada sociedade se relaciona com a infância e, conseqüentemente, o lugar que a criança ocupa em cada uma delas. Segundo o autor, a infância enquanto uma fase áurea de pureza e ingenuidade, em oposição à fase adulta, consiste numa criação ocidental moderna. Num processo que se iniciou paralelamente à ascensão da burguesia e à ampla difusão dos valores culturais burgueses, a criança passou a representar um ideal capitalista de progresso, merecendo a atenção e o investimento parental (em educação, sobretudo): pura potencialidade, puro vir-a-ser, acolhida pelo amor materno e submetida à autoridade paterna.
Na idade média, ao contrário, as altíssimas taxas de mortalidade infantil serviam, simultaneamente, como causa e conseqüência de um contexto familiar onde não se investia tanto nas crianças. Morriam aos montes. E, enquanto viviam, não recebiam o tratamento especial posteriormente dedicado à infância. Trabalhavam. Aprendiam sobre o universo dos adultos na interação direta com eles, e não mediada por qualquer preocupação pedagógica como a escolar, que agora nos parece tão indispensável. Neste aprendizado, entravam em contato com cenas e temas (desde a modernidade) considerados “adultos” – violência, dinheiro, responsabilidade civil etc. – sem o menor constrangimento, pois não havia uma separação nítida entre o que é próprio da infância e o que é próprio da idade adulta.
Entre estes temas, destaca-se a sexualidade, restrita pela moral burguesa à esfera privada e ao universo dos adultos. A noção de que crianças são seres imaculados e desprovidos de sexualidade, predominante no contexto europeu do início do século XX em que Freud produziu a maior parte de sua obra, justifica suas palavras (e nos faz supor o escândalo que Os três ensaios sobre a teoria da sexualidade produziram frente à “opinião popular”, no momento de sua publicação):

 

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