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Artigo

O Envelhecer e o Espelho

Carmen Teresinha Frota B. Bastos

 

 

Uma senhora de 65 anos caminha a esmo pelos recantos assombreados do Jardim Botânico. Busca um banco para sentar-se, e se depara com as palmeiras centenárias que recepcionam os visitantes. São árvores que se impõem pela altivez que conquistaram ao longo dos anos. Ela traz os olhos úmidos e marcados por recente cirurgia plástica. Pretendendo reencontrar um olhar vivo e curioso para o mundo, foi à procura de um cirurgião plástico que os repuxou, retirando as bolsas que estagnavam as lágrimas de uma existência. Finda a cirurgia, se olhou no espelho e não encontrou a jovem que outrora fora.

A campainha toca, Lena entra no consultório, meditativa e com um andar vagaroso. Deixa-se cair na cadeira de frente a mim. Olha-me intensamente e por fim fala: sabe, eu estive ontem caminhando pelo Jardim Botânico e invejei as palmeiras centenárias. Elas têm um “quê” de dignidade que as acompanham à medida que envelhecem. Quisera eu aprender com elas a sabedoria que as mantém eretas e dignas, essa sabedoria de poder envelhecer com força e lucidez. Conforme o tempo passa continuam a crescer. Acredito que lá de cima possam ter uma visão mais ampla de toda a paisagem. Queria que o cirurgião me devolvesse a leveza de outrora, o jeito com que eu balançava os cabelos e me permitia saborear tanta fruta diferente. Parece que hoje tenho as horas desenhadas num roteiro já há muito conhecido. Acordo, leio o jornal, tomo café, caminho sozinha na praia, mal vejo o mar. Mais tarde, as novelas me espreitam. As refeições têm horas rígidas tal qual meu corpo que não mais se estende. Pílulas para dormir, pílulas para a enxaqueca, pílulas para as dores nas costas, pílulas para a pressão, pílulas para essa vida sem graça e monótona. Daí, imaginei que o cirurgião me daria outros olhos, mas depois fiquei pensando tanta coisa, e me perguntei : mas quando eu comecei a envelhecer? 

E quando você começou a envelhecer?
Acho que foi quando eu parei de desejar, de sonhar, de arriscar, de me queimar até. Foi quando eu dei por certo a minha vida, trocada em miúdos, e me pus no álbum de fotografia e o fechei. Mas eu quero abri-lo de novo. Há muitas viagens que ainda não fiz. Quero poder olhar pelas janelas...

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