CODEPSI

BUSCA AVANÇADA
< voltar

Artigo

A invenção da infância: a criança e o cuidado ampliado

Larissa da Costa Mendes
9/2018

A invenção da infância: a criança e o cuidado ampliado Como é possível falar de criança sem pensar nos adultos que se responsabilizam por ela? Mais ainda, como é possível pensar nas crianças sem nos ocupar das famílias e suas condições de vida, sua comunidade e sociedade onde se inserem? O pediatra e psicanalista inglês Donald Winnicott costumava dizer que “isso que se chama bebê, não existe”, o que existe é uma dupla: mãe-bebê, isto é, adulto-bebê. Quando nos referimos ao bebê, precisamos sempre pensar em um adulto devotado a dele, pois o bebê é absolutamente dependente de outro ser humano que lhe garanta a vida, que atenda às suas necessidades físicas e emocionais. A não correspondência a essas exigências, acarreta consequências para a saúde física e mental. Winnicott define este processo de acolhimento ao recém chegado como “ambiente facilitador à vida”. De qual ambiente estamos falando e quais são as características que o tornam favorável à vida ? Trata-se de ambiente dinâmico, composto de pessoas que estão ao redor do bebê dedicadas e empenhadas no seu cuidado. São adultos que desempenham tarefas básicas – vestir, alimentar, trocar fralda, limpar, ninar... – mas acima de tudo estão vinculados emocionalmente ao pequeno integrante da família, dedicando seu amor, atenção, tempo e prontidão para que a sua existência seja possível. O laço afetivo é, portanto, o principal veículo do desenvolvimento humano. Winnicott é um teórico importante em nosso percurso de aprendizado, é um autor que valorizou muito a questão dos cuidados no âmbito da promoção da saúde. É um autor que chama a atenção para o papel do desenvolvimento do bebê e a sua relação com o mundo, principalmente com o “ambiente emocional facilitador à vida”, aspecto de amplo destaque em sua obra. Vamos voltar a esta definição em outros momentos, pois ela é central em nosso estudo. Winnicott enfatizou o papel da saúde emocional na construção da cidadania, numa lógica de dentro para fora, família – mundo. A imagem que ele nos legou foi a de círculos concêntricos que encontram o seu centro de gravidade na figura do bebê envolvido pelos braços maternos. Estes círculos benignos, como ele os chamou, são círculos sociais que apontam para o percurso da ampliação do cuidado e da construção da cidadania. Função essencial para a garantia da vida. Por fim, amparando a todos por meio dos mais variados dispositivos e políticas, está a sociedade. Vivemos em uma sociedade onde crianças e adolescentes ainda são muito “falados” e pouco escutados. Muito se diz sobre eles, mas será que conseguimos verdadeiramente ouvi-los? O que será que as crianças teriam a dizer sobre a surdez do adulto com relação a elas? Apesar da criança ser hoje em dia reconhecidamente um sujeito de direitos, muitas vezes ainda é percebida como uma pessoa incompleta, um aprendiz do mundo adulto, que não tem voz ou simplesmente possui limitações em decorrência da sua prematuridade. Não é incomum ouvirmos por aí frases como: “criança não tem querer, sou eu quem mando”, “eu sei o que é melhor pra você”, “é preciso respeitar os mais velhos”, “tem que obedecer sem questionar”. Este traço característico de assujeitamento da criança que aparece no discurso do adulto é herdeiro de uma tradição histórica que vale a pena nos debruçarmos brevemente. A criança sempre existiu, mas a “infância” é uma invenção relativamente recente. O conceito de infância é uma categoria social e historicamente construída que sofreu muitas transformações ao longo do tempo. É inaugurada a partir do momento em que há um reconhecimento social da sua importância. No período da Idade Média (476-1453), as crianças tinham um papel social mínimo, eram tidas como incapazes e inúteis, nada podiam realizar sozinhas, necessitando serem guiadas. A criança era considerada um adulto em miniatura e assim era representada tanto na vestimenta quanto na participação da vida social. Elas eram também vítimas das altas taxas de mortalidade, o que gerava um investimento afetivo bastante restrito por parte do adulto e da sociedade como um todo (Ariès, 1981). Ao contrário dos tempos atuais, não existia naquela época o sentimento de cuidado, ou paparicação (Ariès, 1981), pois as famílias entendiam que a criança que morresse, logo seria substituída por outras crianças que poderiam ocupar o seu lugar. A família não exercia função socializadora, a criança aprendia o que devia saber trabalhando junto com outros adultos, no espaço público. Segundo Ariès (1981), “a criança era, portanto, diferente do homem, mas apenas no tamanho e na força, enquanto as outras características permaneciam iguais” (p.14). Neste momento, ainda não existia a ideia da família como instituição da vida privada, separada do domínio público. A criança era desvalorizada e não pertencia a lugar nenhum. O final do século XVII, foi considerado bastante relevante na evolução dos sentimentos em relação à infância e na origem de uma preocupação com a formação moral da criança. Foi nesta época que começou a se pensar na criança como um indivíduo dotado de fragilidades e merecedor de atenção. A influência da Igreja Católica também contribuiu significativamente para a mudança de pensamento, associando as crianças à figura angelical, dotada de ingenuidade e inocência. Do século XVII ao XIX, a criança sai do anonimato e deixa de ser vista apenas como um aprendiz de adulto. Neste momento, o reconhecimento da família como uma instituição da vida íntima, privada, também contribuiu para que a infância ocupasse um lugar central para a fundação da família que se agrupava em torno dela e para a sociedade. O ex pequeno adulto passa a ser alguém com estatuto próprio que necessita de lugar, tempo, espaço e cuidados diferenciados. Assim se desenhava a evolução para o que hoje conhecemos como infância. Como reflexo deste movimento, surgem as primeiras instituições voltadas ao atendimento das crianças pequenas, inicialmente das crianças órfãs. As primeiras instituições de “Educação Infantil” datam da primeira metade do século XIX em vários países da Europa, e no Brasil, mais tardiamente, a partir da década de 1870. A consolidação da infância como um tempo a ser cuidado e preservado está intimamente ligado ao desenvolvimento das instituições de educação, fruto da nova preocupação dos pais com o futuro de suas crianças (Ahmad, 2009). A educação infantil, passa a ser estimulada na instituição escolar fortemente influenciada pelos princípios básicos do cristianismo. Cabe à criança crescer e se desenvolver e não mais servir os adultos como se verificava na Idade Média. No entanto, é importante ressaltar que o sentimento sobre a infância nasce especialmente nas camadas mais nobres da sociedade, na classe dita burguesa. E assim, nasce também o acirramento das classes sociais e o aprofundamento da exclusão. Em consequência da Revolução Industrial, muitas mulheres entraram no mercado de trabalho, deixando de se dedicar exclusivamente ao lar. Quase todos os integrantes da família proletária pertenciam ao mercado de trabalho, inclusive as crianças. Com a evolução tecnológica, durante o século XIX, se consolida a diferença no tratamento escolar da criança burguesa e da criança proletária. Este contraste entre as classes sociais vai para além da educação e permanece até os dias de hoje. É fácil notar que as crianças mais pobres continuam sem acesso à infância. No Brasil, a infância começa a ganhar importância em 1875, quando surge no sudeste do país os primeiros jardins de infância inspirados na proposta do pedagogo alemão Friedrich Froebel (1837), os Kindergarten. Os jardins de infância surgem no sistema educacional privado visando atender às crianças emergentes da classe média industrial. Em 1930, em decorrência das lutas sindicais da então nova classe trabalhadora brasileira, o atendimento pré-escolar se torna também uma realidade no setor público (Ahmad, 2009). Além disso, também era preciso atender à nova ordem legal da educação: pública, gratuita e democrática. A invenção da infância foi expressão particular do sentimento de família enquanto instituição moderna, guardiã da vida provada. Cabe ressaltar que a preocupação com as crianças era muito mais fruto de uma preocupação moral e social do que sentimental. A Modernidade – período consolidado com a Revolução Industrial – sublinhou significativamente a relação entre criança – escola – infância, colocando em cena a educação como função a ser compartilhada pelo ambiente familiar e escolar. Com o advento da Revolução Industrial e o surgimento do capitalismo, verificou-se um aumento do número de crianças abandonadas e também exploradas como força de trabalho para geração de renda. A mão de obra infantil era considerada barata e sem nenhum controle ou fiscalização por parte das autoridades. A infância passava a ser também um problema político e econômico que exigia atenção. A sociedade e os governantes, imbuídos desta preocupação, mobilizaram-se para criar políticas públicas que assegurassem a proteção da infância, especialmente no caso das crianças mais vulneráveis e desfavorecidas. As desigualdades bem demarcadas pela expansão do capitalismo produziu especial preocupação com as famílias e crianças mais pobres. No Brasil, essa iniciativa se deu por volta 1942 quando foi criado o Serviço de Assistência ao Menor - SAM, que abrigava menores em conflitos com a lei. No entento, em nome da proteção, praticava-se exclusão e repressão dos menores abandonados e marginalizados. Este foi o movimento embrionário que faz nascer muitos anos depois o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), filho da constituição de 1988 e fruto da grande participação popular que reivindicava a proteção dos direitos da infância. Embora o ECA utilize a palavra “criança” ao invés de “menor” para se referir aos pequenos cidadãos, esta distinção entre “menor” e “criança” permanece nos dias de hoje de acordo com a origem da classe social. O termo “menor” continua a criminalizar a infância negra e pobre em contraste com as “crianças” brancas de classe média/alta, para as quais a infância foi inventada. Segundo Esther Arantes (1999), ao definir uma criança como “menor” se deixa entrever uma natureza de irregularidade, pois trata-se de “uma curiosa distinção que não diz respeito à faixa etária, mas à classe social, e que faz com que a “sentença” recaia no menor, e não na situação. É o menor que passa a ser visto como irregular, já que porta em sua “natureza”: valores anti-sociais, carências de todos os tipos, comportamentos inadequados, agressividade, periculosidade, etc.” (p. 257). A partir de um artifício que transformou a pobreza em irregularidade jurídica, a criança pobre passou a ser definida como “menor carente” ou “menor infrator” (Esther Arantes, 1999) e, para remediar esta situação, são necessárias medidas socioeducativas que se destinam a corrigir o “menor”, punindo a pobreza e descontextualizando as condições e atitudes que o levaram àquela situação. Após este percurso histórico sobre a evolução do conceito de infância, retomamos então a questão colocada anteriormente sobre um certo assujeitamento da criança no discurso adulto. Quando falamos de um apassivamento da infância de modo geral, não podemos deixar de constatar que ele é ainda mais intenso nas crianças pobres. Se na Idade Média, todas as crianças eram excluídas socialmente, com a modernidade, a infância se consolidava na burguesia. Somente muito tempo depois é que as políticas públicas vieram a se ocupar das crianças mais vulneráveis com um forte traço assistencialista que continua a dar o tom das preocupações com relação à infância. Ainda nos dias de hoje, o olhar voltado para esta parcela da população é marcado por uma tendência que Franco (1989) classificou como “lidando pobremente com a pobreza”. Com a emergência da vida privada que impactou fortemente a concepção de família, a excessiva valorização do foro íntimo também teria trazido um contraste relevante, especialmente nas classes sociais mais abastadas: uma supervalorização da criança. Com a evolução da sociedade burguesa, a criança sai do anonimato e passa a ser o reizinho do lar (Del Priore, 2012). Nem pequeno adulto e nem majestade, a criança deve ser definida pelo que ela é: um sujeito com desejos e direitos – segundo a psicanalista Françoise Dolto. A autora que se dedicou a ouvir e compreender as crianças, ajudando seus pais nesta tarefa, argumenta que a definição da infância não deve se dar pelo seu negativo, pelo que ela não tem e nem pelo que deve vir a ser: adultos potencialmente promissores. Para a autora, não se deve falar SOBRE as crianças, mas sim COM as crianças. Com o passar do tempo, muitos adultos vão perdendo o contato com a sua mais íntima criança, aquela que carregam dentro de si. Assim, deixam também de ouvir aquelas que estão à sua volta, especialmente os próprios filhos. Nesta surdez que se estabelece, os adultos muitas vezes perdem a chance de aprender com as crianças. É preciso que se criem espaços para falar diretamente com esses sujeitos em construção, é preciso dar voz a eles, entender sua condição, possibilitando assim uma interação saudável com o seu meio que às vezes pode ser tão adverso. É na infância que começamos a internalizar e construir valores, é através das trocas sociais, das saudáveis relações inter-humanas que se constituem sólidos valores calcados no respeito à vida. Daí a importância do trabalho com crianças, especialmente na primeira infância. Françoise Dolto em seu livro A Causa das Crianças (p.326) sublinhava a importância do investimento na primeira infância, dirigindo-se inclusive aos gestores de cada nação: “Eu teria apenas uma coisa a dizer aos homens políticos: É de zero a seis anos que o lesgilador deveria ocupar-se mais dos cidadãos”. E se a família também tem papel primordial no favorecimento das condições para um bom desenvolvimento infantil, atuando ativamente na construção da cidadania, ela precisa ser fortalecida, cuidada e amparada por agentes externos. Do mesmo modo que não podemos pensar na realização pessoal sem o suporte do meio social, seria impossível pensar na sociedade independente dos processos individuais e coletivos de crescimento dos indivíduos que a compõem. Em outras palavras, todo aquele que porventura se encontre na posição de agente cuidador, necessita ser amparado, cuidado, por uma instância outra que lhe seja externa: “é impossível existir sociedade independente dos processos coletivos de crescimento dos indivíduos que a compõem” (Winnicott, 1975, p. 190). Bibliografia: ARANTES, E. (1999). De “criança infeliz” a “menor irregular” – vicissitudes na arte de governar a infância. In: Jacó Vilela, Ana Maria, Jabur, Fábio e Rodrigues, Hiliana de Barros Conde (Org.). Clio-psyché: histórias da psicologia no Brasil. Rio de Janeiro: NAPE – UERJ. ARIÈS, P. (1981). História Social da Criança e da Família. Trad. Dora Flaksman. 2.ed. Rio de Janeiro: LTC. DAVIS, Madeleine & WALLBRIDGE, David. (1981). Limites e espaço: uma introdução à obra de D. W. Winnicott. Rio de Janeiro: Imago. DEL PRIORE (2012). A criança negra no Brasil. In: JACÓ-VILELA, AM., and SATO, L., orgs. Diálogos em psicologia social DOLTO, F. (2005). A causa das crianças. São Paulo, Ideias & Letras. FRANCO, M. (1989). Aparecida C. Lidando pobremente com a pobreza. In: ROSEMBERG, Fúlvia (Org.). Creche. São Paulo: Cortez. WINNICOTT, W. (1975). Conceitos contemporâneos de desenvolvimento adolescente e suas implicações para a educação superior. In: O brincar e a Realidade. Rio de Janeiro, Imago. Sites: http://www.partes.com.br/educacao/historicodainfancia.asp https://www.portaleducacao.com.br/conteudo/artigos/psicologia/historico-do-desenvolvimento-da-infancia-desde-a-idade-media-ate-os-dias-de-hoje/26666 http://books.scielo.org/id/vfgfh/pdf/jaco-9788579820601-16.pdf http://revista.ufrr.br/examapaku/article/viewFile/1456/1050 < voltar
Os textos podem ser divulgados ou reproduzidos, integralmente, desde que mantenham as informações sobre o autor e sobre a CODEPSI.

Telefone: (21) 4141-9087
© 2018 CODEPSI. Todos os direitos reservados. | Política de Privacidade
Créditos: D| Design Estratégico e Interage Solutions