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Artigo

Tempo e Psicanálise: uma introdução

Larissa da Costa Mendes
7/2018

O tempo é um tema tão onipresente quanto inesgotável tanto para a filosofia como para a psicanálise. Pensá-lo sempre foi um desafio colocado para os diversos campos de saber, possibilitando múltiplas compreensões e a construção de infinitos usos e discursos. Todos nós experienciamos o tempo, sabemos sobre ele, mas não apenas de uma única maneira, simples e coesa; podemos de algum modo intuir suas múltiplas faces, pois somos frequentemente confrontados com seus diferentes modos de presentificação, isto é, com tonalidades temporais. Conceito aparentemente trivial, “o tempo ecoa a si mesmo, engedrando um número infinito de imagens, de melodias, de pensamentos” (PELBART, 2004, p. XVI), convidando a refletir e desconfiar das rasas definições, uma vez que ele demonstra, além de tudo, uma natureza subversiva às inúmeras tentativas de explicá-lo (GONDAR,1995). Ao longo de sua história, a filosofia e também a física debruçaram-se sobre ele, buscando apreendê-lo e domesticá-lo, extraindo diversos modos de entendimento e inúmeras teorizações científicas, tais como: o tempo espacializado de Newton, o tempo subordinado ao movimento, fatiado em intervalos como teorizava Aristóteles, a teoria da relatividade de Einstein que vincula espaço-tempo como entidade geométrica, as equações matemáticas que relacionam tempo com os fenômenos naturais de modo geral, e por aí vai. Frequentemente representa-se o tempo através do modelo espacial, e daí resulta a dificuldade de ilustrarmos mentalmente o tempo de outros modos – qualitativos, por exemplo – exigindo um certo exercício de abstração, para além dos modelos quantitativos que têm sua expressão radical na distância percorrida pelos ponteiros do relógio. Em psicanálise, não existe um conceito específico de tempo, no entanto, ele se torna assunto substancial quando se trata da constituição de um sujeito, ou seja, quando se pensa o sujeito a partir de certos modos heterogêneos de organização temporal. Em Freud, existem diversas modalidades temporais, não se tratando, portanto, estritamente de um tempo subjetivo. Segundo Castro (2008), em psicanálise, o acento recai sobre a função do tempo na produção de um sujeito, ou seja, sobre a gênese temporal a partir da qual o indivíduo começa a se contar, como uma espécie de marco vital inaugural. Desse modo, o tempo tanto é intrínseco ao sujeito como também lhe é constituinte. Kehl (2009) ressalta que a qualidade que define o psíquico não é puramente espacial, localizável em uma estrutura específica, mas especialmente temporal, e é por isso que, ao falar de tempo em psicanálise, deve-se fazê-lo no plural, pois diversas temporalidades heterogêneas estão em jogo. O filósofo francês Michel Serres (1988) aborda essa pluralidade ao desdobrar a etimologia da palavra “tempo”, que vem do latim tempus. Ele afirma que o termo guarda em suas raízes um forte parentesco com a noção de mistura, como demonstram seus termos derivados: temperar, temperatura, temperança, tempestade, intempérie. Estes traços de significações arcaicas que a palavra preserva são interessantes para pensar a trajetória dos sentidos que alguns termos vão adquirindo ao longo do uso linguistico. (...) para conceber o tempo, o latin tempus ou o inglês time, ou o alemão Zeit, existiam compostos como temperatura ou temperar, que significam estados extraordinariamente complexos, estados temperados (...) o problema muito mais geral da mistura é, na língua latina desde a origem, o predecessor absoluto do termo tempo (...) (SERRES, 1988, p. 308). Embora Freud não faça uma teoria do tempo, sua obra aponta para múltiplas temporalidades que, embora distintas, se entrelaçam e se sobrepõem, contrapondo-se a qualquer tentativa de se estabelecer uma noção una e homogênea. Na psicanálise freudiana estaria presente este sentido de mistura que libera a palavra “tempo”, menos relacionado a uma ideia de síntese e aproximando-se mais de uma noção de conjunto (com-junto) de elementos distintos, que, apesar de misturados, preservam seu colorido próprio. Em Freud, quando se fala de tempo, trata-se de noções temporais heterogêneas. Em Deleuze (1969) encontramos um encaminhamento interessante para se pensar o tempo em psicanálise. Trata-se de uma ideia labiríntica do tempo, onde não é possível formar um sistema único e coeso, pois pensar o tempo é, desde sempre, considerá-lo como multiplicidade. O tempo à luz de Deleuze (1969) é compreendido como coexistência virtual e não como sucessão, ou seja, o tempo não exclui um antes e um depois, mas os sobrepõe e está para além desta simples definição que ordena uma lógica retilínea. Para Deleuze (1969), presente, passado e futuro misturam-se em um labirinto, fusionando-se em alguns momentos e afastando-se em outros, desafiando uma tradicional organização do tempo. No livro O Tempo Não Reconciliado, Pelbart (2004) reúne e descreve a trama de tempos que se encontra expressa de modo fragmentado na filosofia de Deleuze: Afirmar concomitantemente todos os tempos, afirmar num mesmo mundo todos os mundos possíveis (...) é onde o filósofo beira o delírio. Já não se trata de uma mera sucessão de sonhos, mas de uma bizarra arquitetura do tempo, labiríntica, turbulenta, caótica... Imagem de tempo que não corresponde apenas ao caos fantasioso de nosso sentido íntimo ou psicológico, mas também ao da natureza, da história, do clima... (PELBART, 2004, p.XVIII). A ideia do tempo em Deleuze corresponde a um grande mosaico, cujos pedaços embora divergentes possuem relação entre si (PELBART, 2004). Esta imagem de um mosaico do tempo, pode ser trazida para o campo da psicanálise, contribuindo com uma certa leitura que pode ser feita das temporalidades presentes em Freud. Na teoria psicanalítica encontramos várias acepções temporais distintas que não nos permitem delimitar um tempo singular, exigindo que consideremos diferentes nuances que se embaralham. Podemos sublinhar diversas temporalidades da psicanálise a partir de três eixos temáticos prioritários sobre os quais se edifica o pensamento psicanalítico. São eles: a noção de tempo mítico, o a posteriori e a (a)temporalidade inconsciente. A ideia de um tempo mítico remonta à questão das origens e desdobra-se em muitos momentos da obra freudiana, como na noção de recalque originário, momento-chave da clivagem psíquica; no mito original de Totem e Tabu (1913) que forja o nascimento de uma cultura; e finalmente na ideia da hipótese filogenética que aponta para um tempo herdado e pré-individual. Um tempo anterior ao indivíduo que, no entanto, o determina de algum modo, ainda que o sujeito não o tenha vivido presencialmente. A temporalidade do a posteriori ou, em alemão, nachträglich, diz respeito a uma temporalidade retrospectiva, produtora de significação e bastante explorada em Freud (1895-97) através da teoria da sedução e da primeira teoria do trauma – processo que se dá em dois tempos. Configura-se como o tempo por excelência da psicanálise, pois evidencia um funcionamento inconsciente operante e descontínuo, onde o sentido advém num segundo momento, isto é, num só-depois. Trata-se de uma lógica temporal muito explorada pelos pós-freudianos, especialmente pela escola francesa, com Jacques Lacan (1953). E por último – e não menos importante – a relação do inconsciente com o tempo. Freud ao definir o inconsciente como atemporal, coloca em cena um estatuto próprio aos processos que ali ocorrem, pois não se encontram regidos pelo mesmo tempo da consciência. Nesse sentido, pode-se descrevê-lo como um fora do tempo da consciência, uma vez que se define aparentemente pela negativa, pois é atemporal. Assim, a atemporalidade do inconsciente nos leva a pensar, num primeiro momento, que nele não se aplica qualquer noção de tempo. No entanto, ao falar de um fora do tempo, estamos de algum modo remetidos ao tempo regido pela consciência. Desse modo, esta questão merece duas perguntas: De qual temporalidade do mosaico psicanalítico o inconsciente está excluído? Não seria possível supor em nosso mosaico um estatuto temporal próprio aos processos inconscientes? Esta discussão sobre as múltiplas temporalidades da psicanálise visa compor o desenho de um mosaico do tempo em Freud, com suas diversas partes e particularidades, enfatizando a pluralidade de noções de tempo que podemos identificar no campo psicanalítico. O tempo homogêneo, cronológico e espacializado, torna-se, portanto, apenas uma vertente possível de tantas outras que encontramos: o tempo mítico, o tempo retrospectivo do a posteriori e o tempo (ou a sua ausência) do inconsciente. Estas abordagens aqui delimitadas não esgotam os tempos de Freud, nem almejam um fechamento conceitual em torno da questão, mas buscam ressaltar eixos temporais importantes no campo psicanalítico que se abrem à perspectiva de uma compreensão plural do tempo. Bibliografia: CASTRO, J. E. (2008). A psicanálise e o tempo. In: Psicanálise & Barroco em Revista, UFJF / MG, v. 6 – n. 3. DELEUZE, G. (1969). A Lógica do Sentido. São Paulo, Perspectiva. FREUD, S. (1913). Totem e Tabu. E. S. B., vol. XIII. GONDAR, J. (1995). Os Tempos de Freud. Rio de Janeiro, Revinter. KEHL, M. R. (2009). O Tempo e o Cão – a atualidade das depressões. São Paulo, Boitempo. LACAN, J. (1953). Os Escritos. Rio de Janeiro, Zahar. PELBART, P. (2004). O Tempo Não Reconciliado. Imagens do Tempo em Deleuze. São Paulo, Perspectiva. SERRES, M. (1988). Temps. In: A. Nysenholc e J. P. Boon (org), Redécouvrir le temps. Editions de l´Universitè de Bruxelles. < voltar
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