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Ensaio

POR QUE A PSICANÁLISE?

Monica Ismael
12/2015

Elisabeth Roudinesco publicou seu livro intitulado "Por que a psicanálise? " em 1999. Passaram-se 16 anos e as questões pensadas por ela permanecem. Freud e depois Lacan fizeram um esforço de transmitir a psicanálise de forma viva e dinâmica. Freud desenvolveu sua teoria até seu último escrito, a cada caso, cada sessão. Nunca entendeu a psicanálise como uma teoria terminada. Fez muitas revisões nos seus textos, pois sua compreensão da teoria mudava a cada experiência, cada elaboração. Escreveu um artigo chamado "Análise terminável ou interminável ", pois se a pulsão só descansa com a morte, “não cansa de não se inscrever “, o que seria então o final de uma análise? Freud produziu, trabalhou até o fim de sua vida, confirmando sua idéia de fim de análise. Lacan teorizou sobre a psicanálise com a colaboração da lógica, linguística, topologia e filosofia. Recusou a idéia de pensar a psicanálise de forma positiva e cartesiana, privilegiando o pensamento dialético. Quando Lacan pensa o inconsciente estruturado como a linguagem, traz a psicanálise como uma teoria que se constrói a cada fala, cada sessão. E ainda privilegia o significante ao invés do significado, invertendo a máxima Saussuriana que colocava o significado acima do significante. Quando Roudinesco faz sua pergunta " Porque a psicanálise? " , me parece que situa a pergunta na nossa época, onde tudo é pensado de forma rápida e objetiva. Onde não há tempo para ser humano. Onde a máquina muitas vezes prevalece ao homem. Qual o lugar da psicanálise então? Certamente não corresponde a essas expectativas modernas, ou pós-modernas. Não corresponde a demanda de cura objetiva que nossa sociedade faz. A psicanálise pensa o sujeito de forma singular e valoriza sua subjetividade. A ciência moderna busca soluções objetivas. A tecnologia nos traz instrumentos novos a cada dia numa tentativa sem fim de responder a essas demandas de forma objetiva . Aí caberia pensar o termo cura. De novo faço a mesma pergunta de Elizabeth, porque a psicanálise, se a ciência promete a cada dia mais uma pílula nova, capaz de curar desde espinhela caída até o luto mais doído. E a psicanálise? Qual sua promessa? A psicanálise se interessa pelo discurso daquele que procura um analista e se dirige a ele. Já nesse discurso, nessa fala existem dois, esse sujeito é dividido. Há o sujeito do enunciado e o da enunciação. Há um desencontro na sua própria fala. Estamos chegando perto da minha questão, do que quero pensar sobre a psicanálise. Dessa proposta de " cura ". O sujeito que chega com um sintoma, uma queixa, muitas vezes se apresenta como um sintoma. SOU deprimido, SOU obssessivo. Há uma questão de identidade com o sintoma muito forte, diria estrutural. Minha pergunta é : Como abrir mão de um sintoma que foi construído desde minha constituição como sujeito e reforçada ao longo da vida? O sintoma se apóia num traço que é estrutural. Numa identificação narcísica. Fantasma. Abrindo mão do sintoma, sobra o que? O sintoma se constituiu entre o eu ideal (onde fui amado) e o ideal de eu (onde serei amado), na ponte que se constrói ligando um ao outro que é o narcisismo. Penso o trabalho de análise como um deslocamento delicado dessa identificação. É preciso muito trabalho e uma transferência fortalecida, para que o sujeito possa experimentar outras identidades. Porque a psicanálise? Porque somos humanos, porque somos contraditórios, choramos quando outros riem, rimos quando outros choram. Sofremos sem motivo razóavel. Porque acredito na subjetividade e não acredito no automático, na máquina. A máquina não vê o brilho nos olhos, ou os olhos que desviam dos seus. A máquina não é capaz de fazer arte. Fazer semblant, ela é simples e objetiva. A psicanálise aposta no que nos faz (narcisicamente), mais humanos que os outros humanos, na singularidade, no desejo, na fantasia, no gozo, na repetição. E é esse seu material de trabalho. Trabalho difícil, mas quem disse que seria fácil? < voltar
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