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Artigo

Afinal, devemos temer ou não o portador de transtorno mental?

Sorelle Achkar
2/2014

A respeito do trágico episódio que acometeu a família do cineasta Eduardo Coutinho, muitas perguntas e dúvidas andam circulando por aí. Qual teria sido a motivação para o crime? O que levaria alguém ao extremo de praticar ato tão bárbaro? O que acontecia na intimidade daquela família que culminou em tamanha tragédia? Foi um ato intempestivo, premeditado, impulsionado por algum tipo de transtorno mental, um surto? Teria sido o primeiro evento? Enfim muitas conjecturas estão sendo feitas e apenas o desenrolar das investigações poderá esclarecer o ocorrido. E até que seja feita uma perícia, só podemos especular sobre a real condição psíquica de Daniel Coutinho. Mas sem dúvida que acontecimentos como este, crimes cometidos contra parentes tão próximos, em geral pessoas queridas e amadas pelos seus, causam um estranhamento em todos nós, por expor à sociedade um lado obscuro do ser humano que insistimos em manter distante de nós mesmos, numa tentativa mais do que legítima de assegurarmos e protegermos aquilo que conhecemos como humanidade. Esquecendo assim que estes atos, por mais horríveis e por mais repulsa que nos causem, também fazem parte do conjunto dos atos praticados por seres humanos. Nunca estaremos preparados para nos defrontar com este horror que vez ou outra, irrompe num sujeito, assola uma família, uma cidade, uma sociedade. Assistimos chocados e queremos respostas, talvez para assegurarmos a nós mesmos que estamos a salvo e que é somente com este outro, um estranho, um vizinho, um desconhecido, que este tipo de coisa acontece. O horror do qual queremos distanciamento, ao contrário do que se imagina, pode irromper em gente como a gente, dentro de famílias muitas vezes bem estruturadas como as nossas e poderá ser percebido apenas na intimidade destas famílias, que por vezes entre constrangidas e envergonhadas escondem suas mazelas, suas angústias e relutam e se demoram a procurar ajuda profissional. Enquanto esperamos o diagnóstico a ser dado pela perícia nos próximos dias, gostaríamos de trazer à baila uma discussão que esta notícia desencadeou em nossa sociedade, expressa nos noticiários e redes sociais. Muitos têm inferido a partir de certas considerações sobre o estado psíquico do filho do cineasta após cometer o crime, que ele estaria sob os efeitos de um surto psicótico. Ainda nada sabemos a este respeito. Mas perguntamos: devemos temer a pessoa portadora de um transtorno mental? Pacientes diagnosticados com esquizofrenia oferecem perigo a seus familiares e à comunidade à sua volta? Matéria publicada por Elenilce Bottari no Jornal o Globo no dia 4 de fevereiro nos informa que "Segundo dados da Coordenação de Saúde Mental da Secretaria de Administração Penitenciária (Seap) do Rio, de cerca de 120 pacientes psiquiátricos cumprindo medida de segurança no Hospital Henrique Roxo, 40 cometeram homicídio. Desses, a maioria sofre de esquizofrenia e matou a facadas algum parente em primeiro grau (pai, mãe, filho). Outra triste coincidência: em quase todos os casos, os pacientes não estavam em tratamento quando aconteceu o crime." Ou seja, são raros os casos em que pacientes esquizofrênicos reagem com violência a ponto de cometer assassinato e mais raro ainda se este paciente estiver sob tratamento adequado. E mais, muitos pacientes após terem sido diagnosticados como portadores de transtorno mental obtêm apenas tratamento medicamentoso e ficam a mercê de seus pensamentos persecutórios, das vozes que os tomam de assalto sem oportunidade de serem ouvidos por psicólogos ou psicanalistas para dar trato às palavras e serem escutados na sua singularidade como sujeitos. As famílias também merecem e precisam de apoio e tantas vezes não o têm. Fatos como estes demonstram a importância do suporte psicológico que tanto os portadores de transtorno mental como suas famílias necessitam, tanto mais quando sabemos dos benefícios para estes pacientes de um intervenção precoce. Intervenção esta que, em um número pequeno de casos graças a Deus, poderiam evitar tragédias similares a estas e que na grande maioria dos casos podem conferir dignidade a tantas vidas de tantas pessoas portadoras de distúrbios psíquicos e de suas famílias. E afora isto, tratar do assunto, do crime em questão, com respeito, cuidado e delicadeza que a realidade dos fatos desta enorme tragédia familiar nos impõe, para que não se aumente ainda mais o sofrimento desta família. < voltar
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