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Artigo

DOIS PERSONAGENS DA MINHA INFÂNCIA NUM SUBÚRBIO DO RIO

Maria do Carmo Bomfim
11/2011

 
       Por onde andarão Moacir Maluco e Esmeralda: os loucos da minha infância? No céu? No inferno-destino dos malditos?
       Ele era negro, esfarrapado,os olhos esbugalhados, sujo, baba escorrendo.
       Chegava na hora do almoço, batendo com a colher no prato de alumínio.
       Aquela figura grotesca entrando casa adentro, de repente, estancava à porta da copa, bradando palavras estranhas. Aquela invasão me assustava.
       Minha mãe enchia seu prato de comida e ele se calava ou conversava baixinho consigo mesmo. Nessas horas eu via um Moacir doce, um menino carente não só de alimento, mas de carinho.
       Outras vezes, sentado na soleira da porta de nossa casa, jogava o prato para o alto, derrubando a comida na calçada e xingando quem passasse pela rua. Minha mãe ficava brava com ele e jurava que não lhe daria mais nada. Mas todos tínhamos pena do “maluco do bairro”.
Ele sumia, reaparecia, sempre tocando seu lamento naquele prato, até que desapareceu de vez, deixando em mim a lembrança dessa primeira sensação de medo.
       Conheci, pouco tempo depois, Esmeralda. Essa me fazia gelar.
Uma tia visitava uma amiga, toda semana, e me levava com ela. Quando eu ouvia o som de um chocalho, já sabia: Esmeralda, parente da dona da casa, ia aparecer.
A louca descia a escada, vinda do segundo andar, sacudindo o chocalho e dando gargalhadas, que permaneciam no ar como lâminas cortantes, apavorando a criança que eu era.
       Diante da violência dos dias atuais, essas experiências vividas na infância soam como inocentes e minhas lembranças de Moacir e Esmeralda vêm acompanhadas de ternura.
Hoje, o medo está entre todos e em qualquer lugar. Os ensandecidos não batem pratos, nem usam chocalhos, e não vivem pelas ruas, mendigando.
       A loucura está na relação doentia entre as pessoas, na ânsia de poder, na competição destrutiva, na falta de amor e no cultivo do ódio.
       Moacir Maluco e Esmeralda só podem estar na eternidade, tocando suas músicas tristes, única forma que possuíam de reivindicar a atenção que mereciam. Lá, eles não assustam ninguém e talvez sejam a alegria do paraíso. < voltar
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